Confissões de um filho de pentecostal reformado

A primeira pergunta que ouço quando digo que sou um Pentecostal reformado é:

– Como é que é isso?

Respondo:

– Simples! Fui predestinado a falar em línguas!

Risadas nervosas e cara de dúvida geralmente seguem.

Predestinado a falar em línguas? Mais ou menos. Eu, pessoalmente, nunca falei em línguas. Aliás, lá em casa, sou o único que nunca recebeu este dom. Cresci ouvindo meus pais orando em línguas (durante o louvor, orando por alguém na igreja, quando eu passava pelo quarto deles e estavam intercedendo, por exemplo). Até minha esposa ora em línguas, mas isso ela guarda para sua devoção pessoal. Me contento em saber que John Piper sempre pediu a Deus por esse dom, mas nunca falou em línguas.

Como bom filho de pastor, cresci ouvindo as histórias do meu pai na mesa após o culto de domingo, nas conversas com pastores convidados no gabinete ou numa refeição e outros momentos do tipo. Nasci e cresci na Igreja Cristã Nova Vida. Vivi um pouquinho só da história do meu avô, Roberto McAlister, pois ele morreu quando eu tinha sete para oito anos de idade. Lembro bem quando, após a sua morte, meu pai foi iniciar seu mestrado no Reformed Theological Seminary (RTS) em Orlando, no EUA. A maioria do curso era à distância, mas algumas aulas tinham que ser presenciais. Então, meu pai coordenava essas aulas com minhas férias do colégio e nós então passávamos um mês por lá todo ano para acompanhá-lo enquanto estudava. Ele chegava dos estudos exausto e eu ouvia algumas histórias dele com nomes que só viriam a fazer sentido anos depois. Ouvi a respeito de um tal de R.C. Sproul que atropelava seus alunos com seu conhecimento e, às vezes, com seu temperamento explosivo. Alguns outros nomes acabaram entrando no meu inconsciente, de certa forma. Scott Swain, Bruce Waltke, Ron Nash e tantos outros.

Ao longo dos anos, fui ouvindo as mais variadas histórias, geralmente ao redor da mesa. E aquilo tudo nunca fez muito sentido para mim. Anos mais tarde, fui a um acampamento da Mocidade Para Cristo (MPC) em Belo Horizonte e eu ouvi um amigo meu discutindo teologia com um irmão presbiteriano que cismava em tirar sarro da nossa cara. “Como assim vocês são pentecostais e reformados, meu?” Eu não sabia o que aquilo queria dizer, pois meu despertamento para a teologia veio bem mais tarde. Mas, ouvi as diversas piadas como: “Fiz uma oração pentecostal e levantei minhas mãos e disse ‘em nome de Jesus’!” E, claro, todos olhavam para eu e meus amigos “do fogo” e riam.

Mais alguns anos mais tarde, fui à minha primeira conferência Fiel para jovens. Lá, foi o início dos primeiros choques doutrinários. Fui apresentado a um sujeito que me perguntou se eu era batista ou presbiteriano. “Pentecostal”, respondi. Ele fechou a cara para mim. No ano seguinte, o confronto foi um pouco mais tranqüilo.

– Presbiteriano ou batista?

– Pentecostal.

– Mas, então… o que você tá fazendo aqui?

Já me acostumei com esse tipo de reação. Nem me espanto mais. Aliás, já até espero tal atitude. Em uma ocasião, ao conversar com um pastor BEM reformado, me foi sugerido que não mencionasse minha denominação, muito menos o fato de eu ser baterista. Eu não acatei à sugestão. Mas, por incrível que pareça, aquela conversa durou umas boas horas e ao final, nos abraçamos com fortes tapas nas costas como irmãos de longa data.

“Descobrindo” as Doutrinas da Graça

Boa parte dos novos reformados de hoje assistiram um vídeo do Paul Washer ou do John Piper e, de repente, se converteram à Reforma. Seus olhos foram abertos e finalmente enxergaram, como se fosse pela primeira vez, o Evangelho da graça. Eu não tive essa experiência.

Durante minha juventude, meu irmão já tinha iniciado seus estudos na Wheaton College, nos EUA (mesma faculdade onde se formou o Dr. Russell Shedd). Durante suas férias, ele voltava para casa e eu acompanhava as conversas dele com meu pai. (Como eu disse, meu despertamento para a teologia foi tarde) Eu não entendia boa parte daquilo, mas toda vez em que se falava a respeito de “soberania de Deus” e “predestinação”, na minha cabeça eu simplesmente entendia: “Ok, então Deus é soberano em seu perfeito amor e justiça e rege tudo segundo a sua vontade. Beleza! Faz sentido.” Aquilo não me causava muito espanto. Quando aprendi a respeito das doutrinas da graça, eu não tive que desfazer todo um sistema doutrinário na minha cabeça. Aquilo tudo simplesmente fazia sentido para mim. A minha esposa, por outro lado, veio de berço neopentecostal e no meio do caminho “se converteu”. Ela teve um dever de casa que eu não tive. Às vezes penso que eu queria ter tido uma experiência dessas, pois o processo de “descobrir” as doutrinas pela Palavra é algo riquíssimo.

O cruzamento de Azusa com Genebra

Hoje, já formado no seminário, já tendo lido umas boas obras como a Teologia Sistemática do Franklin Ferreira, “Doutrinas da Graça” do James M. Boice e “Dons Espirituais” do Sam Storms, o que sempre me foi familiar hoje tem mais miolo, por assim dizer. Meu pai conheceu o ministério Ligonier quando eu tinha oito anos. Ele começou o mestrado pouco tempo depois disso. Então, o meu crescimento já foi dentro de uma tradição “em reforma”. Quando finalmente cheguei a uma idade de estudo e descobrimento próprio, eu já estava bem acostumado com tudo isso. Foi só depois, ao sair dos arraiais da Nova Vida que me deparei com o choque entre as culturas, doutrinas e denominações em que cresci. Minha mãe é de berço batista, meu tio membro da Batista do Morumbi, minha tia da Presbiteriana do Planalto em Brasília… enfim, minha cabeça sempre foi “multidenominacional”. Mas, obviamente, o berço pentecostal é o meu lar. Mais do que isso, o pentecostalismo reformado é onde mais me sinto em casa. Sou filho de americano com brasileira, nascido e crescido no Rio de Janeiro numa escola americana mais próximo do meu avô canadense que do avô pernambucano. Ou seja… eu SEMPRE vivi entre duas culturas, não pertencendo completamente a uma só delas. Meu inglês é fluente e natural de lá e sou um pouco frio no traquejo, mas na hora de escolher comida eu quero mais é escondidinho de carne seca com pimenta malagueta e pudim de sobremesa (e talvez uma Paçoquita para acompanhar o café).

Vai entender…

Tudo isso para dizer: sou fruto de culturas aparentemente conflitantes. Estou em casa entre tradições distintas e, com isso, me sinto na total liberdade de pegar de ambas o que mais me parece saudável e verdadeiro. O que mais me espanta na convergência de tradições são aqueles que dizem que eu não existo, que sou uma aberração ou até pior, um herege.

Pois bem… O meu consolo é que hoje, cada vez mais, cresce esse número de supostos “hereges” como eu que não se sentem à vontade dentro de uma ou outra tradição doutrinária, estritamente. Sem abrir mão daquilo que é conservador e fundamental às Escrituras e à confissão cristã protestante, esse corpo cresce em vigor numa espiritualidade que considero viva e eficaz, e constantemente em busca da reavaliação bíblica a fim de se manter fiel a Deus e à Palavra (como bom reformado) sem perder a sede pela presença sentida do Espírito Santo diariamente (o sapatinho de fogo chega a quicar).

Para aqueles que desejam conhecer melhor esse “vão” denominacional que eu chamo de lar, recomendo abaixo alguns recursos para ajudar na caminhada. Esta não é uma lista exaustiva, apenas “para início de conversa”.

Livros:

“Doutrinas da Graça” de James M. Boice & Philip Ryken

A melhor e mais completa introdução às Doutrinas da Graça que já li.

“Dons Espirituais” de Sam Storms

Uma ótima introdução ao tema, para quem está começando a pensar a respeito dos dons espirituais. O autor é calvinista e crê na continuidade dos dons.

Youtube:

ICNV Catedral, Bp. Walter McAlister, Pr. John McAlister, Pr. Marcelo Maia

Canal do Youtube da igreja onde congrego com todas as pregações do meu pai, meu irmão e do pastor auxiliar da Catedral.

Curso livre:

O Pentecostal Reformado, com o Bp. Walter McAlister e Pr. John McAlister

Este curso inédito falará a respeito do que é e no que crê o Pentecostal Reformado. É um curso livre com ou sem provas (dependendo da preferência do aluno) que pode ser cursado à distância ou presencialmente. E, o melhor, é bem acessível.

 

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9 comentários sobre “Confissões de um filho de pentecostal reformado

  1. Muito interessante esse texto, pois minha experiência pessoal se assemelha em muito a sua. Sou de origem pentecostal, mais precisamente da Assembleia de Deus, porém, há dois anos me deparei “assustadoramente” com as Doutrinas da graça, e desde então devoro livros, vídeos e tudo que se relaciona com o movimento reformado. Todavia, não posso e nem quero abandonar as minhas origens pentecostais históricas. Sinto nas igrejas reformadas uma entrega muito maior à palavra de Deus, á soberania de Deus, porém, na Assembleia de Deus percebo uma entrega maior ao mover do Espírito – e com isso não me refiro aos exageros que vemos na internet e outros lugares, mas sim da entrega sincera, racional e verdadeira ao Espírito.

    Por isso, hoje me considero um Pentecostal Reformado, pois creio nas doutrinas da graça, mas também creio na continuidade dos dons – sempre de acordo como deve ser biblicamente, basicamente.

  2. Ótimo texto…
    Sou pastor há poucos anos e venho de berço de conversão de igreja pentecostal (com batalha espiritual e tudo mais) e depois neopentecostal… Hoje me identifico com vocês, um pentecostal reformado.
    Os vídeos, comentários e pregações de seu pai ajudaram muito não só a mim (diretamente) mas toda a minha igreja (indiretamente). Uma grande parte do que vivo e prego hoje foi dado a mim por Deus através dele. E creio que você concorda que o primeiro passo para uma igreja saudável é um pastor saudável com o coração no lugar, não é verdade?
    Por isso, dê a ele um muito obrigado! Somente Deus poderá retribuir! O ministério dele tem alcançado a muitos! Digo isso pois eu sou fruto dele!
    Um grande abraço a todos de sua família! Louvo a Deus pela vida de vocês!
    Até +!

  3. Simplesmente sorri ao ler “O cruzamento de Azusa do Genebra”, como sorri (rssrsr)!

    Penso que você deve elaborar um segundo texto como proposta de continuidade. Sou oriundo de um contexto assembleiano, e de terras trasncorrida por Gunnar Vingren e Daniel Berg.
    Percebo que a cada dia temos criado viés teológico, ramificações de algo que já é sólido. doloroso é não saber quando a fortaleza do saber nos atingirá com sua compreensão sobre inúmeras visões.
    Hoje, particularmente, compreendo que tudo que causava dúvida entre esta dicotomia foi sanada, a percepção é que não fui ensinado de forma errada propositalmente, mas por desconhecimento, de fato. Digo, esta é uma percepção pessoal. Hoje me relaciono numa congregação Batista!
    Andrew, abordei estes argumentos para que pudesse realizar esta indagação. Veja, Pentecostal ou Reformado?
    Existe um número expressivo de compensações que precisam ser validadas. Tenho alguns amigos “Pentecostais Reformados”, mas creio que este termo é incoerente na sua etimologia (possui?).
    Seria justo então qualificarmos entre Fervor e Indiferença. Pelo que escuto como justificativas, destes irmãos, não se trata de Pentecostalismo visto que o significado desta palavra não possui a mesma ênfase que nós brasileiros agregamos.
    A luta destes irmãos é por um retorno a fé fervorosa, sem extremismos ou sentimentalismo.
    Mais uma busca implacável a devoção somada do saber, como diria Hernandes Dias Lopes. Posto isso, não vejo associação entre a dicotomia citada.
    Um ponto a ser esclarecido é que, a continuidade dos dons não está associada ao “Pentecostes”. John MacArthur é incisivo em dizer que os dons cessaram. Não consigo afirmar com tanta veemência. Mas não ouso dizer que os dons permanecem ativos tanto quanto as escrituras os mencionava naquele período.
    Com isto, deixo uma indagação que nos compete refletirmos:
    Se os dons não cessaram, as manifestações que vemos na contemporaneidade são as mesmas descritas em Atos? Línguas, Cura, Profecia (…)?

    Concluo pontuando, existe mesmo Pentecostal Reformado?

      1. Infelizmente não posso, tenho residência em Fortaleza.
        Mas quero ressaltar que amo a vida de seu Pai, mesmo em terras longínquas.
        Sempre indico os vídeos com temas relevantes para amigos.
        Tive expectativa de que você fosse argumentar de forma analítica, mas deve rer muitas ocupações.

        Peço desculpa pelos erros de ortografia, só atentei depois de haver escrito. A mente anda vagando em terras distantes.

        Deus Abençoe você meu irmão!

  4. Maravilha Andrew! Que bela dissertação, identifiquei-me com grande parte da narrativa! Amei e considero o Ministério do Bispo Roberto e Walter muito firmado na Rocha! Sem dúvida, está bibliografia e o curso me será de profunda valia! Muito Agradecido! Valdir M. Paes

  5. Cresci na AD e sempre tive posições diferentes quanto aos dons, era motivo de piada as vezes. Ouvia debates com meu pai e sempre concordava com posições de batistas e presbiterianos em partes e meus pais sempre me exortavam falando que eu estava errado. No ensino médio através de amigos conheci a fé reformada, mas uma grande dúvida me veio “e os dons como conciliar ao calvinismo?” isso me deixava intrigado. Comecei a estudar com muita dificuldade e crendo nos dons. Comecei a buscar o dom de línguas para saber se era real. Com algum tempo recebi. E por um acaso encontrei vídeos de seu pai. Me identifiquei bastante, e acabei passando para IPB por essa questão e várias outras que estavam acontendo. Era e é a única igreja calvinista próxima de mim.

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