Sofrimento, pecado e o consolo da eternidade

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Nos últimos quinze dias, estive em dois sepultamentos. Além dos dois, houve mais quatro mortes envolvendo conhecidos ou parentes de amigos. Parece que nunca antes na minha vida fui tão confrontado com este fato quanto nessas últimas duas semanas.

A morte chega a todos, nenhum avanço tecnológico ou humano trouxe solução e nunca resolverá isso. Alguns morrem mais lentamente por conta de alguma doença e outros simplesmente são levados de maneira repentina. Por mais que perante algumas circunstâncias algumas mortes pareçam ser mais fáceis de encarar, em hipótese alguma a partida de um ente querido é fácil. E não há nada que possamos fazer a respeito disso.

No último velório em que estive, sepultamos meu avô materno. Ele, no sentido mais verdadeiro da palavra, descansou após cinco anos sofridos deitado numa cama por conta de diversas complicações.

O que dizer numa hora dessas? Qual palavra pode trazer consolo a algo tão objetivo e conclusivo como a morte? Alguns fazem votos de força e coragem, outros tentam mudar de assunto. Não há, porém, nada que possamos dizer para amenizar a finitude do ser humano. Nós nascemos, crescemos, vivemos e, fatalmente, morreremos. Mas quando este dia chegar, não será o fim da nossa existência, da nossa história.

Nossa percepção da vida, equivocadamente, é restrita à existência terrena, somente. Mas precisamos entender, primeiramente, que fazemos parte de uma narrativa muito maior que nós, que somos meros coadjuvantes numa história que vai muito além da nossa morte.

O já e o ainda não

A partir da cosmovisão cristã, a maneira pela qual o cristão entende o mundo e toda a existência humana, a história da humanidade é definida em quatro partes: criação, queda, redenção e consumação.

adam_and_eveDeus criou o mundo e viu que era bom. Deus criou tudo que existe para que vivêssemos em perfeita comunhão com Ele. Mas nós pecamos junto com Adão na queda e rompemos essa comunhão santa. A partir desse evento, toda a existência humana passa a caminhar à sombra desta queda fatal e danosa a tudo que respira. Vivemos uma realidade manchada pelo pecado, um poder que nos afasta da comunhão perfeita com o Pai. Mas Deus não deixou que as coisas ficassem assim. Na redenção, Ele enviou seu único Filho por nós para que pudéssemos um dia retornar àquela comunhão perfeita que Ele criou.

Mas há um capítulo final desta narrativa que ainda não conhecemos. Enquanto nós, hoje, vivemos nesta era mortal e escrava de uma natureza carnal, a ressurreição de Cristo nos garante uma vitória final sobre este poder maligno no dia da consumação, quando Ele voltará em glória para resgatar os seus.

“Consolem-se uns aos outros com estas palavras”

No encerramento do quarto capítulo de 1 Tessalonicenses, o apóstolo Paulo traz uma palavra de consolo a um povo assombrado por mitos a respeito da vida após a morte. O tema da morte era fonte de grande insegurança e terror para os gregos que viviam numa época em que várias teorias diferentes eram pregadas. Por conta disso, o sepultamento era um acontecimento terrível para aqueles que não sabiam para onde iriam seus queridos partidos.

Dos versículos 13 a 18, Paulo nos dá não uma cronologia da segunda vinda de Cristo (como insistem alguns) e sim uma breve descrição de como será este dia. Ele lembra um povo cristão que não devemos viver sem esperança como aqueles que não têm Cristo. Ele afirma que o Cristo ressurreto voltará dos céus para trazer de volta para si os que são seus, tenham eles morrido ou não. A sua preocupação aos contar essas coisas é pastoral, trazendo conforto aos corações de um povo que encontrava-se desesperado.

É na promessa da segunda vinda, da ressurreição de todos, na consumação de toda a história que encontramos o consolo absoluto e eterno. Consequentemente, é quando perdemos vista dessa promessa que nos desesperamos.

“Grave nos meus olhos a eternidade!”

A promessa e esperança final de todo cristão tem que ser a consumação de toda a história. Porém, tragicamente, o que temos visto é uma nação cristã que parece ter se esquecido disso. A maioria das pregações, dos livros e até dos louvores cantados e divulgados nas igrejas prega uma vida melhor hoje, somente. Pare para pensar, qual foi a última vez em que você cantou um hino que falava da esperança da segunda vinda? Alguns dos meus hinos prediletos e que mais marcaram a minha vida são justamente aqueles que apontam para a consumação da história. Hinos como “Senhor, meu Deus, quando eu maravilhado fico a pensar nas obras de tuas mãos… e quando, enfim, Jesus vier em glória e ao lar celeste então me transportar…” ou “Tu és fiel, Senhor, meu Pai celeste… e no porvir, ó, que doce esperança…”. E faz tempo que não os ouço num culto.

9465796_origParece que a igreja tem perdido de vista essa esperança maravilhosa que temos! E aí, como disse Paulo, por pensarmos apenas nesta vida, somos os mais dignos de compaixão, miseráveis entre os homens! (1 Co 15.19) Temos nos contentando com tanto lixo, com tanta bobagem passageira que perdemos o foco daquilo que deve ser a nossa maior esperança! Nos ocupamos com o sonho da casa própria, a suposta promessa de Deus para nós, com o fim da injustiça social, com toda sorte de causa limitada à nossa existência terrena! Por mais que algumas dessas coisas sejam até dignas de atenção, nada pode tirar o lugar da maior dádiva que temos para seguir e para dar ao mundo. Jonathan Edwards sabia exatamente como deveríamos viver quando ele disse “Grave nos meus olhos a eternidade!”.

Como cristãos, temos que viver nossas vidas à luz da promessa vindoura. A nossa esperança não está porvir, mas no porvir, no dia em que Jesus voltar de uma vez por todas para nos resgatar para Ele. E perante a promessa da eternidade, nada nesta vida pode nos tirar a esperança.

O consolo da eternidade

O quanto pensamos na eternidade? Mesmo? Quanto tempo gastamos meditando a cerca da vinda final de Cristo? Isso deve nos conquistar, nos consumir por completo, nos satisfazer mais que qualquer outra coisa, pois não há nada neste mundo que chegue perto disso. Como disse C. S. Lewis, “Tudo que não é eterno é eternamente inútil”.

Ao meditarmos a respeito da eternidade, somos confrontados e confortados com toda sorte de exortação e esperança. Por exemplo:

Você tem sede pela justiça? Quem mais, como eu, não fica indignado com o nível de corrupção, de mentiras, de maldade entre os homens? Pois saiba que um dia cada um desses homens terá um encontro face a face com Cristo. Para estes, a volta de Cristo não será motivo de consolo, muito pelo contrário. Quando Cristo voltar, Ele restaurará tudo que uma vez foi bom e agradável a Ele, trazendo o juízo devido àqueles que ofendem a sua glória.

f96ef87409140761c5f7a0fad08e3bf6-3Você está abatido numa luta contra o pecado? Pois saiba que isso tem prazo para acabar. Um dia, não teremos mais que lutar contra pecado algum, pois vivermos com aquele que derrotou todo o pecado, de uma vez por todas! Nós poderemos viver livres para experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus para as nossas vidas! Não somos sequer capazes de imaginar uma mente, um corpo, uma vida sem a morte e o pecado. Mas um dia isso terá fim.

A situação econômica lhe assusta? Pode ficar tranqüilo que nenhum projeto de governo pode aumentar o preço ou lhe tirar o lugar reservado no céu, sua morada eterna. O dinheiro lhe falta? Saiba que nenhuma falta de dinheiro pode lhe tirar o que está guardado com Ele.

Para você que está sofrendo, seja pela perda de um ente querido ou por alguma condição física ou outro sofrimento que seja avassalador: este não é o fim da história. Hoje vivemos o meio de uma história, não o fim dela. E quando morremos? Continuaremos no meio da história, pois o final só chegará quando o autor de toda história assim o quiser.

Para quem serve este consolo? Para todo aquele que tem Jesus Cristo como Senhor e salvador. E para aqueles que ainda não o conhecem? Isto pode servir de consolo para eles também. E nós, como mensageiros desta palavra de consolo, devemos levar isto a todos, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus.

Deus não se faz indiferente ao nosso sofrimento, à nossa dor. Assim como Jesus diante da morte de Lázaro, Ele se entristece conosco. Mas Ele nos promete um fim para o sofrimento.

O que temos a oferecer para um mundo condenado à morte pelo pecado?

Fico profundamente entristecido com o modo pelo qual os cristãos têm deixado de lado o que de melhor temos para oferecer para o mundo: a promessa da vinda de Cristo. Nos resumimos a contar uma parcela da história. Nosso testemunho se resume a “Cristão entrou na minha vida e mudou a minha história”, como se nós fôssemos os protagonistas dessa narrativa. Deixamos de lado a Palavra, a Bíblia, o livro que, segundo George Ladd conta “a história a respeito de Deus e de seus atos na história para a salvação da humanidade”.

Foi Cristo que nos inseriu na sua história, numa narrativa que começou muito antes de nascermos, e é Ele quem nos resgatará quando Ele voltar para consumar, para concluir o enredo que Ele começou. É nisso que devemos depositar toda a nossa esperança!

Enquanto Ele não retornar, vivemos na expectativa da sua vinda, como um aluno à espera da formatura ou um noivo à espera do dia do seu casamento (estou atualmente nessa fase). Nos perguntamos, indagamos com raiva “Por quê, Senhor? Até quando?”. Sofremos, sim, mas esperamos e nos consolamos na certeza de que um dia Ele voltará para trazer fim. Clamamos: Maranatha! Vem, Senhor!

E quão glorioso dia será…

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O meu avô faz parte desta história. Eu faço parte desta história. Você faz parte dessa história. A queda faz parte dessa história. O mal faz parte dessa história. A injustiça, a corrupção, a mentira faz parte dessa história. Mas nenhum de nós é dono desta história e nada neste mundo pode trazer o fim dessa história.

Cristo um dia voltará e com Ele virá a consumação, o fim da gloriosa história!

 

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