O fardo injusto de Provérbios 31

Não são poucas as vezes em que já ouvi Provérbios 31 aplicado a um modelo para mulheres a ser seguido e para homens a ser almejado. “Na hora de procurar uma esposa ou de se preparar para ser esposa, leia Provérbios 31. Afinal, ela é uma dona de casa que trabalha arduamente e está super feliz. E este é o padrão de Deus para nós.”

Mas quem é que consegue cumprir com tudo aquilo? E quem é que acha alguém assim?

strongwomanObservemos as características dessa “mulher exemplar”: ela nunca faz mal ao marido, é costureira e pega pesado, é forte o suficiente para carregar provisões de longe, é cozinheira e rica dando ordens aos seus vários servos, saca de agricultura, é musculosa, saca de imobiliária, administra um comércio e dorme de luz acesa, cuida dos pobres e dos familiares, veste roupa fina e roxa, ganha elogios dos filhos e do marido toda manhã e é melhor do que toda e qualquer outra mulher exemplar.

Perante essa descrição, só consigo pensar em todas as mulheres exemplares que conheço que estão aquém deste modelo. Por exemplo…

Minha mãe é considerada por muitos que a conhecem, inclusive e talvez principalmente por mim, uma mulher exemplar. Ela, porém, não é forte, muito pelo contrário. Ela não tem várias empregadas. Ela não entende de imobiliária, mas sabe cozinhar. Ela, sendo pecadora, já fez mal a meu pai – tal qual ele a ela, ela e mim, eu a ela e por aí vai. Ela nem sempre usa roxo, muito menos roupas caras – aliás, não lembro da última vez que a vi de roxo. Confesso que nem sempre a elogiamos em casa, não que ela não seja digna disso. Eu, pessoalmente, acho ela a melhor mãe de todas.

E as mulheres que não se enquadram no modelo? E quem não pode pagar por uma empregada? E se ela não sabe costurar? O que dizer de mulheres que nunca se casam? Ou aquelas que se divorciaram? Não podem ser exemplares? E se uma mulher não consegue ter filhos? Como fica? Será que essas e outras não merecem um marido por não serem “exemplares”?

Vamos pensar um pouco sobre que tipo de mulher é essa.

1. A mulher de Provérbios 31 não existe. E ela não é uma mulher.*

Este é o último capítulo, o encerramento de um livro que fala do quê? Qual é o objetivo do livro de Provérbios?

Rapidamente: Provérbios faz parte do gênero literário bíblico da sabedoria, a literatura conhecida como sapiencial – que inclui Jó, Eclesiastes e Cânticos. Os livros sapienciais serviam o propósito de passar para o povo de Israel a sabedoria de Deus para se viver uma vida piedosa. Cada livro aborda uma aplicação da sabedoria: Jó nos ensina a sabedoria no sofrimento, Cânticos no casamento, Eclesiastes na vida e Provérbios na criação de filhos. Logo nos primeiros versículos, vemos que o autor reune provérbios fáceis de se aprender para que os filhos possam memorizá-los. E qual é o refrão que percorre o livro?

O temor do Senhor é o princípio do conhecimento, mas os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina. (Pv 1:7)

O capítulo 31, assim como o resto do livro, deve ser lido à luz disto: o temor do Senhor é o princípio do conhecimento. Para enxergar, então, de onde vem a figura da mulher usada neste trecho, veja os capítulos 1-9. Neles vemos a constante comparação entre a sabedoria e a insensatez, nas figuras de… mulheres! O autor descreve a mulher insensata e a mulher sábia. Logo, Provérbios 31 é um retrato vivo da sabedoria, uma exemplo visível dela.

2. Este capítulo foi escrito para homens, não para mulheres.*

O capítulo é escrito para um jovem sobre o que procurar numa esposa. Devemos olhar para ele para nos instruir sobre o que deve-se procurar numa mulher? Sim, mas não literalmente e ponto a ponto. O ensino aqui, ou convite (dependendo de como você lê) é para que o homem se case com a sabedoria, a mulher mencionada anteriormente no livro. Devemos notar, também, que a única instrução aos homens é o ultimo versículo: “Que ela receba a recompensa merecida, e as suas obras sejam elogiadas à porta da cidade.” Como diz Rachel Evans no seu livro de pesquisa A Year of Biblical Womanhood (Um ano de feminilidade bíblica), ela descobriu que na cultura judaica os homens memorizavam este capítulo como um hino de adoração às mulheres das suas vidas. Na cultura ocidental, porém, isso se tornou uma prescrição para mulheres cumprirem com o roteiro por completo.

Para um texto “equivalente” para as mulheres que descreve um homem sábio, leia o Salmo 112.

3. Este capítulo não aborda o lado emocional da mulher, muito menos o relacionamento dela com o seu marido.

Uma das razões deste texto não poder ser tido como “roteiro” para mulheres é que ele deixa de fora todo um lado da personalidade de mulher que é essencial ao casamento. Ela não conversa com ele? Não rola nem jogar uma conversa fora na hora de dormir, antes de ela voltar pro quartinho da luz acesa pra trabalhar mais ainda? E mais, se eu como homem leio este capítulo como o modelo de esposa que devo almejar, meu trabalho como marido é apenas sentar na porta da cidade e ser honrado. Não que isso seria ruim, mas… cadê o homem servindo no lar? Praticamente não sobrou trabalho para mim!

4. Há inúmeros exemplos bíblicos de mulheres exemplares que não seguem este padrão.*

Temos Rute, pagã; Raabe, uma prostituta; Deborah, juíza; Esther, uma rainha. Há toda sorte de personagens femininas ao longo da Bíblia que servem de exemplo para nós – homens e mulheres. Mas a característica comum a todas elas é justamente o refrão de Provérbios: elas temiam a Deus e o obedeceram – sem mudar quem elas eram.

cross5. Só há uma pessoa perfeita o suficiente para cumprir fielmente essa lista, e Ele sabe que você não é capaz de fazê-lo por conta própria.

Talvez a maior razão pela qual esse texto não fala literalmente de uma mulher é que ela não só é perfeita, mas ela é exemplar e digna acima de todas as outras. Só há uma pessoa digna de tal honra e louvor: é Jesus Cristo.

Portanto, seja você homem ou mulher, ao ler este texto – de preferência após ter lido todo o livro de Provérbios – busque extrair dele os princípios de sabedoria apresentados, não apenas um roteiro a ser seguido ou buscado. Se tentar viver este modelo, você se frustrará. Assim como a nossa vida com Cristo, se tentarmos viver como filhos de Deus sem dependermos da obra de Cristo e do poder do Espírito, de nada valerão os nossos esforços. Fatalmente, nossas obras se tornam inúteis. Mas se vivermos, conforme o refrão de Provérbios, no temor do Senhor, no conhecimento pleno dEle e do seu Filho, aí sim poderemos viver conforme a sabedoria, a mulher de Provérbios 31.

*      *      *      *      *

*OBS: Este texto foi, em parte, inspirado pelo texto Stop obsessing about the Proverbs 31 woman, escrito por Lauren Oquist e publicado na revista Relevant. Os pontos marcados com um asterisco acima (*) foram ou traduções ou paráfrases de pontos ressaltados por Lauren no seu texto. Eu normalmente traduziria o texto dela, mas como eu já havia feito uma pesquisa prévia e já estava preparando meu próprio sobre o assunto, decidi integrar pontos muito bem ressaltados no seu texto ao texto que escrevi. Para conhecer mais do trabalho dela, em inglês, você pode acessar o seu blog sidehugs.com.
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10 comentários sobre “O fardo injusto de Provérbios 31

  1. Explendido Andrew.
    Uma outra coisa que me vem à mente sobre impossibilidades na vida cristã é que Jesus não veio revogar a lei, mas cumpri-la e não é porque ninguém consegue ser isto ou aquilo que o padrão irá se adaptar aos pecadores. A lei é pura santa e boa….nós não!
    Mas….(existe um “mas”) se entendemos que “sem mim nada podeis fazer” e “tudo posso naquele que me fortalece”, concluimos que a vida cristã é impossível e totalmente possível se não somos nós que a vivemos mas sim Cristo em nossa carne mortal!!!

    Bendita esperança!!!!

  2. Perfeito! É lindo e cômico imaginar um garoto lendo prov. 31 pela primeira vez e concluindo: Não, gente, pera, uma mulher dessas nem precisa de mim, tenho que achar um ponto de equilíbrio né! rs rs

  3. Andrew, parabéns pelo texto, muito bom mesmo. Enquanto lia, lembrei do rev. Daniel Santos, depois me deparei com o comentário dele aqui, muito bom.
    Parabéns!

  4. Hahahaha! Sempre olhei pra mulher descrita nesse capítulo como alguém “outro nível” rsrsrsrs. Jamais alcançaria esse padrão. Eh bom saber q nosso Senhor nos compreende e não coloca sobre nós fardos pesados demais… mais uma vez tranquilizo meu coração ao perceber a minha humanidade, finitude e assim ser capacitada a amá-Lo e agradá-Lo mesmo com minhas limitações. Deus Seja louvado!

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