Os novos “donos” da verdade

Vivemos numa sociedade que ao longo da história sempre teve hierarquias e classes estabelecidas. Em alguns casos, essas definições serviram para fins indevidos, como uma classe dominante que se aproveita para explorar outras a seu bel prazer. Em outros, esse sistema de classes simplesmente reflete o mérito pessoal de cada indivíduo. Para pertencer a uma classe, o indivíduo tem de passar por um processo, conquistar o seu espaço. E assim, alguns sistemas de autoridade foram se desenvolvendo. Não vou entrar no mérito de abuso de autoridade ou de tirania; por hora vamos pensar apenas num conceito de autoridade natural e saudável.

book_pileAo longo da história, o processo de aprendizado necessariamente passou pelos “templos” ou pólos de autoridade, de informação. Quando queremos aprender, procuramos uma fonte segura com a devida autoridade para tanto. A igreja é uma autoridade eclesiástica, as universidades são “templos” de ensino e as bibliotecas são a fonte para quem quer buscar se informar melhor a respeito do que seja.

Cada um desses pólos, porém, traz consigo uma ética própria, uma hierarquia. Quem é que pode assumir o púlpito? Quem é que pode lecionar numa faculdade? Qual é a melhor fonte para se pesquisar livros? Para cada uma dessas funções, é necessário se preparar para poder ganhar o direito de ser ouvido. Para tanto, tenho que primeiro galgar os passos necessários. Para compreender um assunto ‘B’, tenho que necessariamente passar pelo assunto ‘A’, por mais que eu não enxergue isso como sendo necessário inicialmente. Ao ter passado por um processo desses, aprendemos a respeitar os nossos mentores e companheiros de caminhada, assim como aqueles que se dispõe a fazer o trajeto.

Hoje, porém, vivemos na era da internet. Não há dúvidas de que ela seja um avanço para a sociedade. Conversamos com pessoas ao redor do país e do mundo. Temos acesso a toda sorte de material. Quando nos interessamos por um assunto, temos virtualmente uma fonte inesgotável de recursos a dois cliques de distância. A internet derruba barreiras dando-nos acesso direto às mais diversas fontes, até então praticamente inalcançáveis. Mas será que essa quebra de barreiras não está prejudicando e até corroendo um sistema natural construído ao longo de anos? Obviamente, qualquer sistema onde há seres humanos é passível de corrupção, mas consideremos a hipótese sem criticá-la, em primeira instância.

blogger-outreach-largeA meu ver, a internet é uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que ela disponibiliza toda sorte de informação e permite que todos estudem bastante (o que é altamente recomendado), ela também promove uma descentralização de autoridade e subverte, quase que por completo, a hierarquia natural do estudo: quem estuda mais sabe mais e, portanto, pode falar com maior propriedade. Não é necessário se submeter a um professor ou a anos de estudo. Sem ter que nos deslocar e ir até os devidos pólos, simplesmente nos conectamos ao cardápio de informações que é a rede. O problema é que não há um processo de avaliação deste cardápio. Todos os itens nele expostos são “iguais”. E na internet, não só temos o direito de escolher o que vamos consumir, como podemos também produzir e regurgitar (sem a devida digestão) aquilo que consumimos. Sem nunca ter quem me diga o contrário, eu posso “me educar”. Além da busca por informações, a internet nos providencia uma plataforma para falar o que vier à mente. Não há filtro ou crivo, contanto que você concorde com as condições do WordPress, Youtube, facebook e afins. Todos têm voz; todos têm vez. Mas será que isso reflete o mérito de cada voz?

No blog, no facebook ou youtube pouco importa se você estuda há trinta anos ou há trinta dias. Todos, supostamente e virtualmente, têm o mesmo direito de falar com a mesma (suposta) propriedade.
 Não, não estou dizendo que existem “donos da verdade” intocáveis, longe disso. Somos todos pecadores carentes da graça e misericórdia de Deus, independente do quanto estudamos e conhecemos. Mas certamente, quem estuda a verdade há mais tempo tem maior propriedade para falar dela.

Fico imaginando se numa palestra ou numa mesa redonda numa faculdade alguns falariam com a mesma audácia e “propriedade” com que falam na internet, por meio de contas anônimas, pseudônimos e afins. Imagina levantar no meio de um auditório e falar diretamente ao professor em tom petulante: “Mas como é que você pode dizer uma coisa dessas? Afinal, li num livro que isto está errado!” Bem, há uma razão pela qual é ele que está ali na frente, e não você.

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O que mais me perturba é que todo esse processo de aprendizado e pensamento chegou à Igreja. Se não gostarmos do que ouvimos no culto ou numa pregação, basta escolher outra. Se eu não achar uma igreja que diga o que considero ser “a verdade”, basta ficar de pé e sair. Na esquina tem mais uma; e numa outra esquina tem outra e mais outra e mais outra. E se eu não encontrar nenhuma que me agrade, simplesmente fundarei a minha própria igreja. Ou não pertenço a igreja nenhuma e fico em casa com a minha Bíblia e a minha conexão de internet. Recentemente, numa sessão de perguntas e respostas, alguém perguntou ao pastor Tim Keller: “É possível ser um cristão fora de uma igreja?” Ele respondeu: “Certamente. Só acho impossível obedecer a Hebreus 13.17 sem pertencer a uma.”

Mas… onde entra os ensinos a respeito do Corpo de Cristo? Onde fica a comunhão com o resto da Igreja, de se submeter uns aos outros? Onde entra a noção de que é Deus quem dispõe e capacita cada membro conforme a sua perfeita sabedoria?

Sei que a minha posição não é das mais bem aceitas. Numa era individualista, submissão e conformismo são praticamente pecado capital. Não tenho dúvidas de que há quem brigue e discorde fortemente de tudo que disse acima, mas eu realmente fico estarrecido com o fato de que a mera possibilidade de se afirmar qualquer autoridade seja motivo de tanta discórdia quase que imediata.

church-community21Deus é a autoridade máxima da Igreja e de todo cristão, sempre foi e sempre será. Assim sendo, Ele nos deu autoridades na terra para respeitarmos, tal qual respeitamos a Ele diretamente. Pais, professores, pastores, anciãos, presbíteros… Todas essas autoridades são colocadas sobre a minha vida por Deus. Ao menosprezar qualquer uma delas, eu me coloco acima da autoridade de Deus. Entendo e estou bem ciente de que há diversas autoridades que abusam do seu poder, e por isso elas responderão diretamente a Deus. Mas não posso condenar aqueles que só Deus condenará.

Eu tenho uma relação de amor e ódio com a internet. Seria uma hipocrisia dizer que ela é inteiramente prejudicial. Afinal, isso é um blog. O meu, assim como todos os outros, é apenas “mais um” num mar de dados na rede. Meu objetivo com esse texto não é “dar cabeçada” em ninguém, até porque eu não sou nem pastor, nem formado no seminário. Tenho um bacharel em Letras e um seminário incompleto. Mas eu realmente temo pela vida de muitos que fazem o uso indevido dessa ferramenta e o quão prejudicial ela pode ser para a nossa vida de comunhão com Cristo e a sua Igreja.

A minha oração é que nós, como Corpo de Cristo, sejamos capazes de usar este meio para edificar vidas, sem que sejamos desviados pelas tentações que esta mídia nos oferece. E que em tudo, Deus nos dê graça… afinal, é o que todos temos, indiscutivelmente, em comum, seja você pastor, professor ou membro.

“Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus. Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer. (…) pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus.” (Rm 3:10-12; 23,24)

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