Todos dizem “Eu te amo”

Há um tempo, visitei o Corcovado. Apesar de ter nascido e crescido no Rio, acabo me pagando de turista mais vezes do que gostaria de admitir. Por acaso, nos últimos anos acabei visitando o Cristo Redentor algumas vezes por conta de amigos de fora que insistiram em conhecer nossa maravilha do mundo moderno. Por mais que “o Cristo” já seja parte integrante do cenário carioca, há algo de realmente espetacular que acontece quando você sobe lá e se depara com a cidade abaixo. A vista é ímpar. Do Maracanã à Pedra da Gávea, você está perante um espetáculo visual sem igual, imagem notória que estampa diversos pôsteres, cartões postais e cativa a imaginação das centenas de milhares de visitantes que fazem questão de visitar o Corcovado.

I-Heart-Rio-de-Janeiro-(remix)-by-Tai-s-TeesA experiência da visita é indescritível. Desde os milhares de “imitadores” que posam de braços abertos na frente da estátua disputando cada centímetro quadrado da escadinha na frente até o show de cidade mesclada à natureza vislumbrante, é difícil deixar para trás aquele momento. Fica ainda mais difícil fazê-lo quando, ao descer de lá, você tem que passar na frente de várias lojinhas que vendem toda sorte de bugiganga: desde copos de chopp com a imagem do Cristo aos chaveiros do Cristo aos cartões postais do Cristo às camisetas que dizem “I (coraçãozinho) Rio”. Esses comerciantes, obviamente, se aproveitam do momento de êxtase dos visitantes para vender sua mercadoria. Os turistas, tomados pelo momento que não querem perder, lotam as bancas e adquirem qualquer coisa na tentativa de guardar o momento, ou pelo menos o sentimento que tiveram ao estarem “aos pés de Cristo”. A experiência toda se resume nisso: uma experiência, algo vivenciado, um sentimento que dura o tempo que for. A partir dali, a sua experiência o define, o qualifica. Seja uma foto de Instagram ou uma camiseta, aquele momento agora faz parte de você. E amamos a experiência, por mais etérea que seja. Ela passa a nos pertencer. E naquele momento, num rasgo de êxtase (ou talvez pelo ar puro das alturas), todos amam o Rio.

Mas aí vem as seguintes perguntas…

O que este “amor” representa? O que é que o Rio fez para merecer o nosso amor? O que meu amor pelo Rio me leva a fazer? Ou será que eu amo o Rio apenas pelo sentimento de êxtase que ele me proporciona? Sendo assim… eu amo o Rio ou eu amo o que sinto quando estou no Rio?

E assim se define o conceito de “amor” dos nossos tempos. Nos cercamos de medalhas, de símbolos, de relatos, histórias e experiências de amor por algo que nada mais faz do que apontar de volta para nós e para nosso sentimento. E então segue: “Eu amo (inserir aqui seu time de futebol predileto, contanto que não seja o Flamengo)!”, “Eu amo churrasco!”, “Eu amo rock!”, “Eu amo viajar!”, “Sou apaixonado por…” etc.

Em todos esses objetos do nosso amor, o que é que cada um deles faz por você? Seja uma comida ou um estilo musical, o seu amor o qualifica na medida em que o objeto do seu amor suscita um sentimento positivo (em geral). Passamos a nos definir, nos qualificar pelo objetos da nossa afeição, das coisas que gostamos. Numa breve pesquisa de citações sobre o amor, a grande maioria faz referência a um sentimento ou a uma experiência pessoal. Como disse John Lennon, um bom profeta dos nosso tempos: “Não interessa quem tu amas, onde é que amas, porque é que amas, quando é que amas ou como é que amas, o que interessa é que amas.” Essas e outras frases como “É melhor amar e perder que nunca ter amado” e até “Amo muito tudo isso” compõem o nosso imaginário a partir do foco interno.

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Mas, invariavelmente, este sentimento descrito e expressado é um amor egoísta pois só aponta, fatalmente, para o próprio sentimento. Como é que esse nosso amor se expressa? Na medida em que nos apossamos dos objetos do nosso amor. Basicamente, o fato de eu amar pizza, por exemplo, é expressado no tanto de pizza que eu consumo para satisfazer o meu prazer ao comer pizza.

Vivemos em uma sociedade altamente consumista e individualista. O critério final de qualquer ação é completamente relativo àquilo que ela produz em mim. Seja por um sentimento guiado por justiça, caridade, satisfação… tudo é regido pelo que parece certo ao indivíduo, pelo que lhe traz prazer. E assim passamos a nos definir pelos nossos “amores”. Mas eles nunca passam de um sentimento passivo, do quanto eu experimento cada um deles. Esse tipo de amor não pressupõe participação ativa. Eu não preciso fazer nada pelo meu amor… apenas consumir e sentir mais dele. Se eu amo jazz, vou ouvir o máximo de jazz possível, até o dia em que o jazz perder a graça ou parar de me dar prazer.

Infelizmente, o espírito desse amor egoísta tem encontrado espaço (e de sobra) dentro das igrejas – desde os freqüentadores que pulam de igreja em igreja até os hinos que falam de “como é gostoso o seu abraço, ouvir tua voz, sentir o seu calor, me jogar no seu colo, me deliciar aos seus pés, porque dá vontade de pular e gritar, amado meu” e por aí vai. E isso não é nada chocante, afinal, Rm 1 já nos diz que ignoramos o Criador em busca das paixões da criação. Em Rm 3 vemos também que somos destituídos da glória de Deus. E a partir da nossa natureza caída, do nosso coração pecador e egoísta, afirmamos: “Eu amo Deus.” Mas esse amor não passa desse mesmo sentimento descrito acima. Como saber disso? Ele age da mesma maneira. Esse amor busca um culto bom, um louvor animado, uma palavra de poder ou até uma teologia corretíssima ou seja lá o que for aquilo pelo qual queremos ser qualificados ou identificados ou que nos proporcione mais prazer. Frequentamos à igreja que “amamos”. Lemos os livros e ouvimos as pregações que nos agradam e que nos fazem pensar: “Esse sim sabe o que diz. Eu concordo com isso.” Quem é que qualifica o objeto do amor, se não a minha própria vontade?

Mas como é que a Bíblia descreve o amor? Será que esse amor descrito acima é compatível com os seguintes versículos?

Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama. Aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me revelarei a ele. (João 14.21)

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. (João 15.13)

O amor descrito nesses dois versículos é uma afronta ao amor descrito anteriormente. Ele inverte a ordem do amor. O amor deixa de ser algo que nós sentimos em relação a Deus e passa a ser descrito pela nossa reação visível e concreta a Ele. Ou seja, se nós amamos a Deus, nós temos que responder ativamente a esse amor, e não apenas frequentar os cultos e eventos que nos agradam ou cantarolar as músicas que nos emocionam.

Nos dois versículos acima, o amor é qualificado não a partir do sentimento da pessoa que ama. A definição desse amor é externa. Em vez de um amor que consome e busca ter mais da experiência pessoal, temos um amor que se entrega, que se define a partir do que é feito pelo outro. O amor é definido pelo alvo dele, e não pelo que sentimos. Então, se você diz que ama a Deus, mas esse amor não produz nenhuma ação ou você tenta definir esse amor a partir da sua experiência com frases como “eu não poderia amar um deus desses” ou “o meu conceito de deus é maior do que ordenanças e normas”, o próprio Jesus diz que você não ama a Deus. O versículo não diz “aquele que vive de consciência limpa e feliz”, mas “o que segue os meus mandamentos”. Ou seja, é o objeto do nosso amor (que nesse caso é Deus) que define o comportamento ou a expressão dele, e não o contrário. Pensemos um pouco a respeito do amor de Deus por nós e vamos tentar encaixá-lo na descrição inicial deste texto.

Quando Deus olhou para o homem, Ele se identificou conosco? Ele, por acaso, disse: “Eu sei o que é ser um pecador, estou com pena deles. Eu me identifico com os pecadores.” Não. Ou será que Ele disse: “Eles merecem o meu amor, afinal, eles me fazem tão feliz!”. Também não. Muito pelo contrário. Ao invés de amar por se identificar conosco, Ele amou e por isso se tornou homem para que nós pudéssemos nos identificar com Ele.

5782-Jesus_hands_resurrection.630w.tn.jpgQue tipo de amor é esse que Deus nos mostra? É um amor que, em termos mundanos, não faz sentido, pois ao demonstrar esse amor, Deus sabia que não receberia nada em troca. Muito pelo contrário. Ele deu a vida do seu único filho, Ele deu de si para que nós, que nada de bom merecemos, pudéssemos experimentar o amor dEle. Em termos humanos, isso é tolice! Amar ciente do fato de que este amor lhe custará caro? E nós, como é que podemos devolver esse amor, que é imerecido? Não podemos! Não há como, segundo o nosso amor, recompensar a Deus por esse ato de amor. Mas, nosso Deus, em seu grande amor, pensou nisso também e disse: “Aqui estão meu mandamentos. Quer me amar? Então faça-o da seguinte maneira.” O mais estranho disso é que mesmo fazendo tudo isso por nós, Ele sabe que somos incapazes de amá-lo de volta fielmente. E mesmo assim Ele nos ama.

Estamos diante de dois tipos de amor: um amor que busca se qualificar e um amor que busca qualificar o objeto do seu amor. Um é egoísta, o outro altruísta. Um amor é definido pelo que produz internamente, enquanto o outro requer uma resposta externa. O amor que o mundo prega é definido pelo quanto você pode tirar dele, enquanto o amor de Deus fala do quanto devemos se entregar nas mãos de outro sem esperar nada em troca.

E então… quando nós usamos essa frase tão corriqueira, o que é que realmente estamos expressando quando dizemos “eu te amo”, seja por alguém ou por alguma coisa? O que estamos afirmando sobre nós mesmos e sobre o alvo do nosso amor? E, talvez a pergunta mais crucial, o que você quer dizer quando você diz que ama a Deus? Consequentemente, o que é que o seu amor a Deus o leva a fazer por Ele?

 
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4 comentários sobre “Todos dizem “Eu te amo”

  1. Andrew,

    Recomendo fortemente a leitura do livro Os Quatro Amores do C. S. Lewis.
    Acredito que o tema seja um pouco mais complexo do que isso. Nosso primeiro pensamento é sempre condenar o Amor-Necessidade e exaltar o Amor-Doação. Mas ambos podem ser sinceros (e diabólicos) em suas proporções.

    A propósito… bom texto e bom tema! (como sempre!)

    Abs,

    Karla Marra

    1. Karla,

      O tema certamente é BEM mais complexo do que isso. Não dá para fazer uma abordagem completa num mero post. Nem me atrevo a fazer o que Lewis fez, muito melhor que eu jamais poderia fazer. Quis apenas contrapor dois tipos de amor, e não falar sobre todos eles. O livro de Lewis, que recomendo enfaticamente, é genial!

      Abraço,

      A

  2. Andrew, costumo ler seus textos e me parece que músicas em manifestações de adoração o incomoda bastante, deduzi isso pela freguencia em que cita e a maneira sempre negativa. Entendi a sua explicação do que é o amor, ou de como se traduz o amor, mas achei totalmente desnecessária a comparação do que chamou de dois amores contradizentes; frequentar cultos e cantarolar louvores não anula o amor, apenas o expressa de uma outra forma. Nem a biblia e nem os anjos se desfazem desse tipo de manifestação (adoração). Acredito que seja uma questão de perfil; talvez você não goste de adorar com mãos levantadas, nem se sente bem em chorar em publico, nem em cantar louvores em volume alto, e repetir: santo, santo, santo ininterruptamente, mas há pessoas que fazem isso e são edificadas enquanto fazem, e não dá para afirmar que é apenas por sentimento ou em busca de sentir algo, pode ser por gratidão, por angustia profunda e junto a ela a certeza de que não se esta só, pelo mover do Espirito, enfim, N motivos. Adorar não é pecado e Deus é digno de adoração. Acho que não deve colocar a sua forma de ver e reagir como regra de fé e conduta a outros cristãos.

    1. Camila,

      Primeiro, em momento algum afirmo que quem faz isso necessariamente é egoísta. A verdade, infelizmente, é que muitos que fazem isso são. Mas isso não quer dizer que “todo e qualquer” faça. Vemos muitos “espectadores” de igreja que ao se depararem com uma igreja onde não há choro e música alta (por exemplo) em todo culto, simplesmente vão embora dizendo: “Esta igreja não tem poder.” Falo isso por experiência. Eu nunca me coloquei contra a “adoração”, em termos gerais. Tenho minhas reservas quanto a certos tipos de adoração, certamente. Mas não descarto “todo tipo de adoração”. Minha crítica é às pessoas que buscam apenas isso, e não um relacionamento compromissado com a Palavra e a Igreja. Eu nunca disse que adorar é pecado. E não coloco “minha forma de ver” como regra de fé e conduta. Faço meu melhor para expor uma visão fundamentada na Bíblia. No momento em que eu errar (e erro com mais frequência do que gostaria) por favor mostre como a minha leitura das escrituras esta equivocada para que eu possa aprender mais. Peço perdão se a maneira pela qual me expressei deu a entender algo que eu não quis dizer.

      Em Cristo,

      A

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