Existe amizade após o namoro?

Confesso que tenho evitado o assunto de namoro depois de escrever tantos textos sobre esse tópico e ficar meio estigmatizado como “o cara que escreve sobre namoro”. Essa pergunta, porém, volta e meia aparece e senti que seria bom compartilhar os meus pensamentos a respeito.

076A pergunta que não quer calar: existe amizade depois do namoro? Não existe resposta rápida, fácil ou sistemática para essa questão, pois cada caso é um caso. Se um dos indivíduos em questão é um ladrão ou serial killer ou coisa do tipo, então é óbvio que não há como manter uma amizade. Mas para todos os outros casos mais normais de pessoas de mente sã que lidam com a pergunta, vou expor o que sinto ser uma abordagem saudável à questão. Peço que lembre apenas de duas questões. Primeiro, minha opinião não é normativa. É difícil estabelecer uma fórmula matemática para resolver este problema. Nesse texto me proponho apenas a levantar questões para serem devidamente analisadas com o intuito de acrescentar algo à vida daqueles que se encontram perante nessa situação.

Há pessoas que responderiam sem pensar duas vezes que não há, em hipótese qualquer, a possibilidade de se cultivar uma amizade pós namoro. Inclusive, tenho pessoas muito estimadas e queridas que afirmam justamente isso. Entendo perfeitamente as razões por trás dessa posição e concordo com elas, em sua grande maioria. Eu não chegaria a dizer que é impossível se ter uma amizade pós namoro, apenas acho pouquíssimo provável. Penso assim pelas seguintes razões.

Quando um casal começa a namorar, além da ocasional intimidade física que alguns se permitem, existe uma intimidade pessoal, afetiva e emocional exclusiva a esse tipo de relacionamento. Há um sentimento de confiança e dependência vinculados. Eles às vezes se falam toda noite, compartilham um com o outro segredos, anseios, coisas que não se fala com “qualquer um”, pedidos de oração, períodos devocionais etc. Cria-se um vínculo que é muito forte. Há (no caso de relacionamentos genuínos e não apenas iniciados pela vontade de namorar) uma amizade que precede o namoro que é desenvolvida e fortificada, um compromisso firmado no qual os dois se dispõe a se tornar vulneráveis e “baixar a guarda” um com o outro. Mas, por melhor que sejam as intenções de cada um, o namoro nem sempre dá certo…

E aí? Como ficam as coisas? Acabou? Simples assim?

É complicado. Vejamos as razões disso.

O fim do namoro não significa apenas que duas pessoas param de se beijar, de andar de mãos dadas e saírem sozinhas. Não é tão simples assim. Esse aspecto mais comportamental é mais fácil de interromper. O que muitos não enxergam é a profunda ferida emocional que tal ruptura causa. Sim, é óbvio que há dor, saudade e toda uma avalanche de emoções que surgem. Mas há algo mais difícil de se enxergar e que, inevitavelmente, haverá uma tentativa de se recuperar. E a amizade? Como fica? Se éramos amigos no passado, não podemos simplesmente voltar àquilo que fazíamos antes de começar a namorar? Como disse John F. Kennedy:

Queremos que tudo seja como foi antes, mas a história não o permite.

A questão fundamental é: houve um relacionamento no qual os dois investiram tempo, mente e coração e não há como recuperá-lo. Em termos bastante frios, a bolsa de valores quebrou e o seu investimento foi perdido. Aquilo no qual você depositou a sua confiança já não é mais. E aí? Resta recolher os cacos que sobraram e tentar reconstruir algo? Não é bem assim. O impulso inicial é se distanciar, obviamente. A não ser que ambos ainda estejam tentando se reconciliar, o normal é ir cada um para o seu canto. Agora, uma vez passado o baque inicial, começa o processo de sentir falta daquele vínculo emocional firmado, e é justamente aí que mora o problema.

Há uma intimidade normal em toda boa amizade, mas ela não é igual àquela que se desenvolve num namoro. Em vista disso, é necessário que o ex casal reconheça que estão em um novo molde de se relacionar. Deve haver uma ruptura, uma interrupção clara e reconhecida naquilo que os dois se condicionaram a viver. Não há como viver aquela mesma intimidade anterior uma vez que o compromisso foi desfeito. Simplesmente não há. Se isso acontece, ou alguém está tentando voltar atrás e remendar as coisas ou não consegue deixar de ter aquele tipo de intimidade. Ninguém quer perder uma boa amizade. Mas o que sobrou depois do namoro não é simplesmente “aquilo que se tinha antes”. A história não o permite. Logo, o que deve ser feito?

Primeiro, deve se dar um tempo para que as feridas sarem. Não tem como simplesmente negligenciar os efeitos do ocorrido. Não tem, não adianta insistir. Segundo, deve-se identificar o padrão de relacionamento e grau de intimidade do namoro e reconhecer que não há como mantê-los fora da segurança do compromisso firmado. Não adianta, você tem que entender que a outra pessoa que sempre teve acesso a você não pode mais ter a mesma liberdade, se não, nunca deixam de ser namorados. Vai que um das duas começa a namorar sem cortar o vínculo emocional anterior? Aí é uma falta de respeito com o novo namorado(a) e uma mentira consigo mesmo(a). Imagina eu reclamando e desabafando da minha namorada atual para a minha ex namorada? Não pega bem; e nem venha tentar me convencer do contrário.

Então… tendo dito isso, tem como ser amigo de ex? Aí que é complicado. Para se travar a “nova amizade”, é necessário enterrar o antigo padrão e começar algo do zero. Não dá para ser a mesma coisa. Tem que ser algo diferente. E, para tanto, é necessário um tremendo grau de maturidade de ambas as partes. E por mais que haja todo esse reconhecimento e aceitação e perdão de ambos, ainda assim, vai ser estranho durante um bom tempo.

Será que é possível resgatar aquela amizade? Não, não é. Pode ir esquecendo que não vai adiantar em nada. Ou você é jedi master em lidar com as emoções e consegue ser muito frio e calculista para controlar todas as variáveis incluídas no processo (que acho difícil, já que o Yoda era solteiro e o até Anakin perdeu a cabeça justamente por causa de uma mulher), ou você nunca se verá livre dos antigos vínculos e estará eternamente refém dos relacionamentos passados.

Então… existe amizade depois do namoro? Impossível não é, mas eu acho muito improvável e um tanto perigoso, para ser muito franco.

E o que fazer com a história e o tempo vivido? Só há uma coisa a se fazer: é colocar-se inteiramente aos pés da Cruz de Cristo e clamar para que Ele limpe o seu coração, sarando as feridas e os desejos para que você se levante lavado e restaurado pelo sangue que ali foi derramado.

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20 comentários sobre “Existe amizade após o namoro?

  1. Concordo com vc! Não há espaço para uma amizade tão intia quanto a que existia no namoro até porque as conversas no namoro tinham um objetivo maior! É um assunto bem delicado….
    Mais uma vez, parabéns pelo blog e pelos textos tão bem escritos!

  2. Andrew, gosto de ler estes post’s que vc escreve sobre o namoro, acho que vc já é conhecido como o tal rsrsr… No entanto, que mal há nisso, se vc escreve focando a educação Cristã?
    Jesus te abençoe!

  3. Nem mesmo um mestre Jedi! Rsrs quem dirá entao de nós Jovens padawan rs? Brincadeiras à parte; realmente é dificil manter o vinculo de amizade, so penso que nao seria legal se afastar depois de um relacionamento sem liberar perdao (caso alguem tenha saido machucado). Ótimo tema! Ótimo texto.

  4. Oi, André!
    No meio cristão há uma certa “carência” de pessoas preparadas para falar a respeito de namoro para a juventude cristã. O seu blog é uma excelente ferramenta. Gostei muito do texto e concordo com ele. E comentando a respeito do mesmo, acrescento que quando se tem amizade com o ex, às vezes inconscientemente, abrimos margem para perguntas do tipo: “vc já tem alguém em vista? Quero te ver feliz logo, etc”. Se um dos dois ainda tá envolvido emocionalmente, a coisa só piora. Precisamos ser prudentes e guardar o coração.

  5. É necessário ter maturidade em todo o relacionamento, bem como no seu término. Não é impossível, muito pelo contrário, é um dever, como cristão, manter cordialidade e ser participantes da obra como irmãos em Cristo, e isso precede qualquer outro vínculo. Se formamos o Corpo de Cristo, é preciso que haja união e distanciamento das práticas que regem as condutas dos homens que estão no mundo. Jesus nos chama para negar-nos a nós mesmos, tomar nossa cruz e seguí-lo, e isso implica renunciar qualquer desconforto causado pelos nossos sentimentos que conduzem ao egoísmo!

  6. Olá Andrew!
    O seu blog é uma benção em nossas vidas!O Espírito de Deus te deu uma ENORME sabedoria para aplicar as palavras de forma que trazem impacto,cura a nossa alma!Obrigada por ser esse canal de luz em nossas vidas!Que o Senhor o abençoe sempre!

  7. Olá Andrew..
    Gostei muito do blog. Queria tirar uma sugestão contigo. Namorei uma moça cristã durante quase 3 anos. No entanto desses quase 3 anos juntos, 1 ano e meio foi um namoro a distancia. Infelizmente foi ela quem terminou comigo, confesso que eu não esperava, pois acreditava no seu amor por mim, fazíamos planos para o futuro, queríamos crescer juntos. Ela me alegou que estava terminando comigo por conta dos estudos (vestibular, provas de fim de ano), confesso que não acreditei nessa história, mas tambem não insisti pra ela falar o verdadeiro motivo do rompimento.
    Devo parar de conversar com minha ex-namorada no facebook? Devo tirar todas as fotos que estamos juntos? Posso continuar conversando com a mãe dela? O que fazer nesse momento…..

    1. Oi Henrique,

      Cara… situação complicada essa, hein. Acho que seria bom você dar um tempo, pare de falar com ela. A tendência vai ser os dois ficarem pendurados um no outro. Ou vocês se juntam novamente e trabalham para fazer funcionar ou se deixam ir para seguirem em frente com suas vidas. Também não acho que continuar a puxar papo com a mãe dela seja a melhor coisa. Quanto às fotos… acho bom tirar também. Permita-se terminar. Não fique segurando uma porta aberta que vai fechar outras.

      Não é fácil estar onde você está agora, mas posso falar por experiência que ficar pendurado é pior ainda. Vai lhe fazer mal a longo prazo. Melhor encarar de frente a ruptura de uma vez só.

      Que Deus lhe dê forças para fazer o que é necessário!

      Abraço,

      A

  8. E como pode ser se o namoro começou de uma amizade .e provavelmente houve um engano e afinal são só amigos, nunca houve chatices sempre houve dialogo etc… simplesmente houve distanciamento

  9. Oi Andrew,

    Primeiramente, parabéns pelo texto e por você ser – como parece – um bom cristão nos dias atuais.

    Quando eu tinha quinze anos, namorei por cinco meses com um colega de classe adventista, de quem já tinha me tornado amiga havia uns três meses. Depois desse período, conversamos e eu decidi terminar o namoro, porque não sentia mais paixão e aquela vontade de ficar com ele. Ele ainda ficou alguns meses apaixonado, e nesse tempo não nos falamos mais, com exceção de algumas conversas ao longo do ano, mas nada que podíamos chamar de intimidade ou amizade.

    Depois de dois ou três anos, voltamos a nos falar com a mesma frequência de antes, inclusive saindo pra passear, tomar banho de rio, jogar sinuca, comer um lanche. Ele estava namorando há um ou dois anos (sou péssima pra contar tempo) e a namorada dele sabia que éramos amigos, porque ele havia lhe contado para esclarecer as coisas. Ele sempre me disse que, mesmo que a namorada dele tivesse ciúmes, ela deveria aceitar a nossa amizade se o amasse, porque o amor genuíno é compreensivo, não busca só os próprios interesses.

    Eu concordo com isso com todo o coração. Ele foi sempre fiel a ela, nunca tivemos o que chamam de “um remember” da relação anterior, fomos sempre íntimos da mesma forma que antes, com o diferencial de não estarmos mais apaixonados um pelo outro. Eu o amo, mas ambos sabemos o que é esse amor, é um amor Ágape, com carinho e ternura.

    Tenho muito orgulho de dizer que mantive a amizade com meu ex-namorado, que é uma pessoa extraordinária. Por isso, acredito sim que é possível a amizade depois do namoro, pelo menos nos casos em que ele começa com amizade. Porém, acho importante que, pra isso, ambas as partes não cultivem mais a paixão do namoro e realmente consigam ver o outro de outra forma. Mudar a relação sem mudar o sentimento é um sacrifício, é falso, é destrutivo a longo prazo, como você bem disse.

  10. Parabéns pelo blog.
    Esse post foi inspirado por Deus e me identifiquei muito, pois passei recentemente por essa situação. Namorei por 1 ano e 6 meses e por 2 anos fiquei sem falar com meu ex. Ele se converteu há pouco tempo e foi congregar na minha igreja.
    Nos pedimos perdão e decidimos reatar a boa e velha amizade que tínhamos e adivinha? Não deu certo! Simplesmente pq parecíamos dois namorados que não se beijavam. A intimidade era a mesma de antes, e o Espirito Santo muito me incomodou em relação a isso. Foi difícil cortar o vínculo, mas era preciso.
    Como foi dito antes, um “colegismo” ainda vai, nada além disso! Amizade mesmo não dá, até pq as vezes confidenciávamos assuntos que não era legal e vivíamos falando de coisas do passado. E fui me dar conta de que estava alimentado uma possível volta, qnd Deus já havia me dito que nós não eramos um para o outro… enfim, hj é só não temos mais essa intimidade e me sinto bem melhor.

    Fica na Paz!

  11. Também acho um pouco complicado ter amizade com um ex. O namoro é um relacionamento muito íntimo, e quando acaba o melhor é cada um seguir a sua vida, e depois de um bom tempo, pensar em se reaproximar, mesmo que o objetivo seja apenas amizade.

  12. Andrew, uma menina começou a gostar de mim ano passado e já foi logo direto ao ponto, dizendo que queria algo sério(não seguiu um padrão:amizade, ficar e namoro) como fazia pouco tempo que eu tinha terminado um namoro, não queria me relacionar, mas como sou confuso acabei me aproximando e aí acabei meio que pegando uma amizade (não tão profunda) e dps de um tempo acabei gostando dessa pessoa e começamos a namorar estou namorando a uma semana, só que no nosso relacionamento não existe uma certa amizade, é como se não fosse natural, antes de começarmos a namorar não tínhamos uma grande amizade, até pq ela era meio tímida, agora durante o relacionamento ela está se soltando mais, mais não existe um certo diálogo e não sei se o problema está em mim ou nela. Oque faço?

    1. Davi,

      Você já conversou com ela a respeito disso? Creio que vocês devem ter uma conversa sobre os objetivos e expectativas de cada em relação ao namoro e também devem procurar seu pastor ou alguém para aconselhá-los. Mas, antes de mais nada, vocês devem conversar a respeito disso, se é algo que lhe incomoda.

      Abraço,

      A

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