O deus de Romney e o Imperialismo teológico

Hoje saiu o resultado das eleições presidenciais americanas e em destaque na página do Globo está a vitória de Obama junto com as comemorações ao redor do mundo.

Deixe eu dizer o seguinte desde já: não apoio um candidato especificamente, com grande prazer, já que sou brasileiro e não preciso ter uma opinião sobre isso. Segundo, não gosto nem um pouco de democracia. Na Bíblia, o melhor exemplo de democracia que lembro resultou na confecção de um bezerro de ouro. Não sou a favor de uma tirania, mas se Deus é um ditador amoroso e justo, a essa monarquia eu me submeto fácil, fácil.

Sempre fiquei chocado ao ver a divisão política dos EUA, particularmente a relação entre a pátria e Deus. Todo bom americano republicano é cristão, vai à igreja no domingo de manhã, ora antes das refeições… e só. Sua devoção se resume a esses rituais, a ser contra homossexualismo e aborto e a votar no candidato republicano. No que tange ao liberalismo teológico de Obama, eu certamente votaria no Romney. Mas essa semana li uma notícia que me deixou aterrorizado.

Romney, em um dos seus últimos discursos disse o seguinte, parafraseando: Deus fez os EUA para proteger o mundo. Precisamos de um novo século americano. Quando os EUA estão forte, o mundo é um lugar melhor.

Hum… tá. Esse é o candidato “cristão”. Ele fala em nome de Deus. Pode até fazer sentido ao ler Filipenses 2.4:

“Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”

Uma leitura restrita e literal dá todo o embasamento à visão de “sheriff” do mundo. Mas basta ler o versículo anterior que isso cai logo. Aliás, leia o capítulo inteiro. Os pontos que quero ressaltar são esses:

“Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. (…) Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se…” (Filipenses 2.3,5,6)

Hoje o mundo comemora aliviado que esse “maluco imperialista” não tenha sido eleito. Como brasileiro, realmente, eu me sentiria completamente revoltado se os EUA um dia invadissem o meu país “para o meu bem”. Não sei o quão beneficial a eleição do Obama seja em termos morais, mas a questão aqui é outra.

Cresci numa escola americana. Meu pai, até pouco tempo, era americano (ele renunciou a sua cidadania há alguns anos). Quando éramos crianças, nossa turma costumava trocar cartas com uma turma equivalente nos EUA, nossos “pen pals”. Não foram poucas as vezes que aquelas crianças nos perguntaram em suas cartas: “Vocês têm eletricidade? Vocês moram numa casa em cima de uma árvore? Você tem um macaco de estimação?” Não, não é piada. E olha que as nossas cartas eram escritas no computador e impressas.

Ao relatar para americanos o que tinha feito em relação à sua cidadania, meu pai ouviu um belo e orgulhoso: “Realmente, o seu sacrifício é algo honrável”, como se meu pai tivesse aberto mão de tanto ao finalmente poder parar de pagar imposto a um país em que ele não mora há mais de trinta anos.

A grande ironia desse pensamento é que quando os puritanos fugiram da Inglaterra para fundar sua própria nação na América do Norte, eles estavam fugindo de uma visão bem semelhante. A igreja britânica era um antro e imoralidade e qualquer um que nascesse naquele solo já era considerado salvo, afinal, era inglês! Como são as coisas, né?

Podemos citar inúmeros exemplos da ignorância americana em relação a qualquer nação que não seja aquele grande país escolhido por Deus para impor a sua graça e verdade ao mundo (reparem a ironia na escolha da palavra ‘graça’). Mas gostaria de ressaltar o seguinte aspecto: quantos não têm a mesmíssima atitude em relação a irmãos na fé que não estudam tanto quanto nós ou que “não conhecem o verdadeiro evangelho”? Revestimos as nossas convicções teológicas com uma arrogância e agressividade incompatíveis com a mensagem de Cristo. Olhamos para aqueles que não sabem tanto quanto nós e pensamos: “Eu sou o escolhido de Deus para libertar esta pessoa da sua ignorância quanto à Palavra.” E, em nome de Deus, saímos jogando argumentos teológicos e textos acadêmicos fora de contexto na cara dessas pessoas, como se estivéssemos fazendo um bem enorme.

Não sei quanto a você, mas se eu não fosse cristão e fosse apresentado ao deus do Romney, eu NUNCA aceitaria a Cristo. Da mesma forma, vejo tanta coisa sendo dita “em nome de Deus” hoje em dia dentro da igreja que fico sinceramente em dúvida quanto a um não cristão que se depara com tais discussões. Servir a Cristo? Para quê? Para brigar com os “irmãos”?

Não me entenda mal, não sou contra o estudo da teologia. Muito pelo contrário. Acho de extrema importância nos munirmos da sabedoria de séculos de autores dedicados à Palavra. Alías, Pedro já disse isso:

“Antes, santifiquem Cristo como Senhor no coração. Estejam sempre preparados para responder a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês.” (1 Pedro 3.15)

A impressão que tenho hoje, ao ouvir tanta coisa sendo discutida com uma agressividade e orgulho carnal, é resumida nas sábias palavras do meu avô: “Um pouco de conhecimento pode fazer muito mal.”

Quando você evangeliza alguém, como é que o amor e a graça salvadora são retratados? Ao compartilhar uma nova doutrina com um irmão, você parte para uma defesa desenfreada da verdade absoluta que você detém atacando a argumentação fraca do outro ou você o considera superior a si mesmo?

Como cristãos, devemos defender aquilo que a Palavra diz, acima de qualquer outra coisa, sempre. Mas ao fazermos isso com agressividade e orgulho, pregamos com as nossas atitudes contra a própria palavra que sai da nossa boca.

Quanto à eleição americana, minha confiança está em Cristo, pois Ele é soberano sobre tudo e todos, até presidentes (Dn 2.21). Quanto à Verdade, que Deus me conceda a humildade para reconhecer que sou tão merecedor da sua graça quanto qualquer outro e que nenhum conhecimento, seja qual for, me dá o direito de menosprezar um irmão em Cristo. Que Ele afaste de mim a tentação de me vangloriar em qualquer coisa que não seja a sua graça e misericórdia derramadas por mim na Cruz.
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11 comentários sobre “O deus de Romney e o Imperialismo teológico

  1. Estava querendo ler um texto sobre esse assunto e esse me esclareceu algumas dúvidas! Gosto da maneira como você escreve, consigo ler um post seu sem pensar “que texto grande”…rs!

    Paz

  2. Mano, por mais que eu more no Brasil, vivendo num mundo globalizado, qualquer decisão tomada lá em cima, reflete e muito aqui em baixo.
    Por isso, eu torcia pela eleição do Obama, principalmente pela sua politica mais aberta em relação a América Latina.

    Quanto ao Mitt Romney, ele na verdade é Mórmon (http://goo.gl/c4oD2) e algumas pessoas dizem que os Mórmons defendem uma linha de pensamento, que agora me fugiu o nome, onde é proposito divino os EUA protegem o mundo, ou seja, eles são e sempre serão superiores a todos nós.
    Acredito que esse tipo de pensamento deve ter ocorrido, como você disse, na antiga Inglaterra e, guardada as devidas proporções, seria o mesmo pensamento que Hitler teve, ao desejar criar uma única raça perfeita?

    Mais um ponto, não tem como Deus ser um “ditador amoroso”. Acho que essas são duas palavras que se contradizem (na minha opinião). Acho melhor ver Deus como um rei e nós, aqui na Terra, como aquelas pessoas que, um dia viveram dentro do castelo d’Ele, mas hoje, vivemos no meio da floresta e temos que fugir e/ou enfrentar o mal e tempo todo.

    Mas, concordo muito quando você diz que nós, muitas vezes, nós colocamos como superiores aos outros e ao invés de demonstrar amor, mostrar arrogância e superioridade.

    Abração!

    1. Bem, a política não era o foco desse post. Serviu apenas como paralelo para a segunda parte, então vou evitar comentar Obama e Romney e tal. Apesar de ser Mormon, muitos americanos compartilham do pensamento do Romney. E é isso que me assusta. Já ouvi cristãos convictos afirmando isso.

      Enfim… fica a “bandeira amarela” para pensarmos em como temos falado a respeito de Cristo, inclusive para cristãos.

      Abraço!

      A

  3. Ótimo post, me sinto aliviada ao lê-lo. Ha alguns dias atras, decidi parar de entrar em alguns blogs cujo conteúdo me edificava, parei ao ver isso que citou, a forma como passam o que aprendem, sei que todos (dos blogs que lia) tem bastante conhecimento teológico, e a impressão é que qualquer opinião contraria seria vencida facilmente por seus argumentos, e que pra eles discussão vale mais que compaixão, então me recordei do Deus que me chamou, que me tratou e tem cuidado de mim ao longo dos anos, vi que Ele é bem diferente de nós, é cruel apresenta-lo daquela forma, e estava me influenciando negativamente, pois já me via falando como eles. Então decidi parar com a leitura e voltar pra simplicidade do meu Pai, e tô mais leve, quero falar de Cristo da mesma forma como Ele fala a mim, com amor e compaixão. Que Jesus seja o nosso maior influenciador, andar com Ele é sempre seguro. Na paz de Cristo.

  4. Eu não sei muita coisa, mas eu sou totalmente contra os neo-pentecostais misturados com judaizantes, e ultimamente isso tem entrado na igreja onde eu congrego desde que nasci, há 21 anos. Confesso que tenho uma personalidade um tanto forte (olha a desculpa rsrsrs) e que não costumo discutir sobre teologia, mas quando a coisa é absurda demais, como as coisas que eu ando presenciando, eu não consigo segurar os ânimos, pq eu acho tão, mas tão absurdo, e as pessoas parecem tão cegas, aí eu começo a falar, e quando vejo, já perdi a razão…

    Eu já não sei mais o que fazer, pq são questões muito sérias, coisas que eu não consigo relevar, e está chegando a um ponto que eu vou ter que frequentar outra igreja.

  5. Muuuuuuuito bom, Andrew!!!! Tenho apreciado, sempre, os seus textos. Você tem a capacidade de me levar a refletir e a crescer espiritualmente. Concordo com tudo que você falou. Só tenho a dizer, obrigada. Deus te abençoe. Um abraço.

  6. Posso muitas vezes não concordar com o liberalismo social que Obama prega, em temas como aborto e homossexualismo. Mas eu prefiro concordar com alguém que respeita as diferenças (mesmo que não concorde com tais) do que com quem não abe lidar com elas e impõe suas ideologias goela abaixo. Se essa fosse a atitude cristã correta, Cristo, pode ter certeza, teria outra forma de se relacionar com nós, pecadores.

  7. Confesso que seu texto me fez refleti sobre diversas coisas.
    Concordo que nós cristãos estamos passando uma imagem “negativa” do que realmente é ser. Infelizmente, muitos estão se conformando com isso. As nossas ações não tem feito a diferença ao ponto confrontar as pessoas ao nosso redor, digo de uma forma geral (me incluo com coração entristecido).

    Meu desejo é que o amor Dele NOS transforme como em Rom 12:2… e nos mova.

    Paz.

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