Legalismo às avessas

“Não é tolo o homem que abre mão daquilo que não pode manter, quando este está certo de ser recompensado com aquilo que não pode perder.” Phillip Henry

Ainda estou sob o efeito de tudo que vi na conferência da editora Fiel. Mais do que as mensagens pregadas, tive a oportunidade de ouvir e bater um papo rápido alguns palestrantes. O mais incrível era perceber como aqueles homens falavam não de algo teórico, mas as suas vozes carregavam o peso da experiência, da vivência de cada um deles. Era nítido nas suas vozes o tempo gasto em leitura bíblica, as horas de joelhos e prantos.

O puritanismo foi muito citado neste evento. Tanto o Pr. Paul Washer quanto o Dr. Joel Beeke (provavelmente a maior autoridade atual no que se refere à cultura e teologia puritana) o citaram. Eram homens que viviam numa intensa e constante busca por aperfeiçoamento e proximidade com Deus. Desde o processo de alfabetização até a escolha da comida (tal o exemplo de Jonathan Edwards), esses homens e mulheres tinham uma preocupação ímpar em se guardar e viver exaustivamente para Cristo.

Percebi essa mesma noção nos testemunhos dos pregadores. O que foi estranho notar era uma certa percepção de que tanto o Pr. Washer quanto o Dr. Beeke pareciam funcionar em outra frequência. Ao conversar com o Dr. Beeke pessoalmente, ele passava uma tremenda inocência, quase que uma ingenuidade. Ao ver as pessoas conversarem com o Pr. Washer (conforme relatei no meu último texto Meu encontro com Paul Washer), ele não aparentava ser um sujeito “normal”. Há alguma coisa de muito diferente na conduta desses homens.

Lembrando de uma conversa com um dos funcionários da editora Fiel anterior ao evento, ouvi a respeito do Pr. Washer que ele não frequenta shoppings nem vai ao cinema. Perguntei se era contra ir ao cinema, mas a resposta foi apenas: “Não é que ele seja contra, mas, ele não vê graça nenhuma nisso.” Semelhantemente, ouvi falar de como o Dr. Beeke cresceu sem televisão. Ele se orgulha do fato de que seus filhos foram criados longe da telinha. Ao relatar para nós a sua experiência, dizia com alegria e orgulho nos olhos: “Você sabe o que acontece com crianças que não têm televisão em casa? Elas lêem livros!”

Confesso que me senti um E.T. perto deles. Já não assistimos televisão aqui em casa faz alguns anos (isso vindo de alguém que sabia a programação semanal do canal Sony de cor). Mas eu adoro pegar um cinema ou assistir um filme no sofá com um balde de pipoca. Será que eu deveria cortar isso? Inicialmente, a proposta soa legalista, como se nós fossemos capazes de merecer a salvação por meio do cumprimento de regras. Mas o sorriso e a paz de ambos os pregadores denunciava algo que ia muito além de meras restrições. Aliás, eles não se restringem. Eles simplesmente não dão a mínima. Eles estão satisfeitos com outra coisa.

Voltando de lá, tive a convicção de que eu tinha que buscar mais intensamente a Deus. Decidi que tenho que me dedicar mais intensamente à leitura bíblica e à oração, preciso buscar a literatura clássica puritana e toda sorte de livros fundamentais à fé cristã. Mas ainda tem alguma coisa no meu coração que não bate. Esses dois vivem à margem da sociedade, da “civilização” por assim dizer. Porém, essa aparente alienação não lhes faz falta alguma! Ambos pregam e vivem satisfeitos em desfrutar de Cristo!

Cabeça em parafuso… para alguém que sempre está por dentro dos lançamentos, sabe quais trailers já estão no Youtube, acessa diariamente o site do Omelete para saber dos filmes que serão lançados (mais alguém ansioso pela estréia do Hobbit?)… Será que há algo de errado em buscar um entretenimento secular, sejam músicas ou filmes, ou até livros? É pecado estar “por dentro”? Em si, não. Não é pecado assistir um filme ou ouvir uma música, contanto que haja um critério de avaliação para cada um deles.

A ideia de viver uma certa alienação do mundo em geral me assusta, não faz tanto sentido assim. Será mesmo que Deus se preocupa com esses detalhes? Claro que não. A questão não é normativa, como se houvesse uma restrição necessária a certas coisas. Aí sim seria legalismo. Mas será que ao buscar um entretenimento, por mais inocente que seja, não estou aleijando a minha vida com Cristo?

Há certos filmes que assisto que não terminam com os créditos. Fico pensando naquela trama, digerindo cada cena. Alguns filmes são tidos como “muito bons” e realmente trazem uma baita lição. Por exemplo: “O advogado do diabo” com Keanu Reeves e Al Pacino. Não assisti, por razões que citarei abaixo. Ouvi dizer que é uma baita lição sobre o orgulho. Mas também sei que esse filme é carregado de cenas de sexo. Eu sei que quando acabar o filme, as imagens vão continuar rolando na minha mente. Com música, a mesma coisa. É impressionante como dez segundos de Carly Rae Jepsen se tornam num dia inteiro de “Hey, I Just met you, and this is craaaaaazy…”. Acabou a faixa e o barulho fica na cabeça. Tudo bem que ouvimos música ou assistimos alguma coisa para “desligar” depois de um dia intenso. Mas será que esse entretenimento é tão “limpo” assim?

Quando eu era criança, o horário de desligar o vídeo game era sete da noite. Segundo a minha mãe, passássemos disso, atrapalhava o sono. Um dia decidi desafiar a sabedoria de mãe e não deu outra… o Super Mário não me deixou dormir. Fiquei matando tartarugas e correndo atrás de estrela até as altas. Um inocente vídeo game tirou o meu sono. Uma música fica tocando na minha cabeça horas depois de desligar o rádio. A tela apaga, mas as cenas dos filmes continuam rolando na minha mente.

Chego na igreja para o culto ou na hora de ler a Bíblia e orar sozinho e tento me aquietar. Depois de tanto filme, tanta música, tanto jornal, tanto barulho… quem consegue? Mesmo? Eu não. Depois do último Batman, fiquei uma semana pensando no Bane ao invés de pensar em Paulo. É inevitável. Será?

Pensando em como posso fazer para me separar do mundo e me aproximar de Deus, me espanto com o quanto eu hoje luto com essa questão de “Mas… abrir mão de algo tão normal?”. A minha angústia com essa questão me assusta. Daí alguns textos bíblicos vêm à mente…

“Mais do que isso, considero tudo como perda, comparado com a suprema grandeza do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por cuja causa perdi todas as coisas. Eu as considero como esterco para poder ganhar a Cristo…” Filipenses 3.8

“… perguntou-lhe: “De todos os mandamentos, qual é o mais importante?” Respondeu Jesus: “O mais importante é este: ‘Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’.” Marcos 12.28-30

“Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?” Mateus 16.26

Essas palavras me confrontam de maneira desconcertante. Eu não estou disposto a amar Deus de todo coração, alma, entendimento e força. Eu não quero perder a minha vida. Não quero viver como um estranho ao mundo à minha volta.

Daí lembro do Paul e do Joel. Eles têm algo que satisfaz muito além do mero entretenimento. Eles abrem mão de coisas tão insignificantes para ganhar uma vida com Deus! Como argumentar com isso?

Depois dessa conferência alguma coisa mudou dentro de mim. Eu enxerguei uma verdade que não me dá outra opção se não buscá-la com todas as minhas forças. Mas ao mesmo tempo ela é tão pesada que tenho medo. Se eu me desligar do mundo, assim, completamente… vou virar um E.T. Não farei parte das piadas internas, não saberei das referências feitas a nenhuma novela, eu serei um estranho no mundo, alheio a tudo que acontece nele… que nem o Paul Washer e o Joel Beeke. Mas eles têm uma alegria diferente, transmitem uma paz e segurança quase que irreais. Eles “perdem” muito. Mas eles ganham algo tão melhor. Por que será que isso me incomoda tanto?

Não tenho como objetivo apontar o dedo e denunciar aqueles que gostam de assistir um filme ou coisa do tipo, até porque eu seria o primeiro a ser acusado. Mas eu quero lhe provocar a se perguntar o seguinte: seu lazer, seu entretenimento, aquele momento de “desligar completamente”, por mais inocente que seja… será que isso não está tirando da sua vida com Cristo? Não estou falando do tempo gasto, mas de como aquilo ocupa o nosso coração e mente e impede a nossa plena satisfação em Deus.

A verdade é que nós nos contentamos com tão pouco enquanto Deus nos oferece a melhor coisa que existe: Ele mesmo. Não há nada que se compare a Deus. E eu não consigo enxergar isso! Mas eu quero ver isso. Eu quero ver Cristo exaltado no seu trono de glória! Eu quero viver uma vida para o meu Senhor e Salvador! Eu quero ser mais do que essa miserável condição na qual vivo hoje! Eu preciso ver Cristo!

Se eu for capaz de perder a minha vida… Ele é fiel para cumprir a sua palavra. E eu ganharei uma vida de verdade, uma vida que nunca será tirada de mim, uma vida com Ele!

 

 

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29 comentários sobre “Legalismo às avessas

  1. Belo texto.! Acredito q quanto mais nos achegamos a Deus mais consideramos as coisas do mundo como futilidades. Legalismo eh evitar o mundo msm o amando. Agora é muito maravilhoso evitar o mundo pq ele não nos satisfaz mais. E essa é a verdadeira transformação do Espiritoo Santo em nós.

  2. “Eu enxerguei uma verdade que não me dá outra opção se não buscá-la com todas as minhas forças.”
    Interessante, Andrew, nos últimos 2 ou 3 anos tenho orado muito e pedido o discernimento a respeito da verdade, acima de tudo, a verdade que vem de Deus. E com isso tenho me deparado também com situações e discernimentos que me fazem pensar: e aí, o que você vai fazer com isso, deixar pra lá ou mudar? E mudar nem sempre é fácil… mas também tenho experimentado o quanto é gratificante crescer na caminhada, em sabedoria, e estar em paz por lutar para viver a verdade.
    Penso que Paul Washer e Joel Beeke descobriram o caminho que Inácio Larrañaga fala em seus livros, “o purificar o território das intenções”. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais filtramos aquilo que entra em nossa mente e em nossos corações, e corrigimos cada vez mais as intenções do coração, ou seja, aquilo que manifestamos (que deixamos sair…). E assim, aos poucos, vamos nos desapegando do mundo e de suas coisas, sem perceber, gradualmente, porque elas não fazem mais tanta falta como faziam antes…

  3. De fato é melhor buscar o Reino de Deus acima de tudo, abrir mão de todas as coisas para estar com Ele, desfrutando da Sua presença. O que seria da igreja, da sociedade e do mundo se todos os cristãos se envolvessem com o Senhor desta forma?

  4. Paulo, olhando para o mais íntimo do seu coração, exclamava: – “Miserável homem eu sou. Quem me livrará do corpo desta morte? ” . Só Cristo, nosso Senhor! Andrew, após ler tudo isso, só consigo me lembrar de um versículo que resume a nossa fraqueza em tentar mudar e não conseguir: “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço” Romanos 7:15 Essa necessidade de “mudanças” muuitos enxergam, mas poucos conseguem realmente mudar. Os que mudam, são aqueles que dependem de Deus para sua mudança. Os que não mudam, são aqueles que falam: “eu quero, eu posso, eu faço”. Que possamos depender o nosso querido Pai, para mudarmos de VERDADE! Que o Senhor nos ajude! Deus te abençoe Andrew. Você está sempre em minhas orações.

  5. Bah, o que dizer? Isso demonstra que não desfrutamos por inteiro a presença de Deus. Estes homens nos servem de exemplo, uma vida TOTALmente dedicada as coisas do alto, não as coisas terrenas, mas isso não porque Deus se revela só a alguns “privilegiados” (e com certeza estes são privilegiados mesmo!) Ele se revela a quem o buscar, intensamente, aquele que se achegar, aquele que tiver um coração puro e podemos ter isso!! Penso que deve ser uma glória tão grande, mas tão grande, que preenche qualquer vazio, completa tanto que tudo o que não envolva a presença dEle não tem valor algum… não tem graça! Nossa, quero muito experimentar isso!! É morrer pra si mesmo literalmente…todos os dias! Mas o mais engraçado disso é que se estivermos nessa “sintonia” com Jesus, não iremos querer “voltar atrás”, continuar a ser como éramos, nos importar com que as pessoas pensam, pois experimentaremos e veremos a glória de Deus e não existe nada que se compare a isso. Como diz Paulo: “Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho.” Filipenses 1:21. É muito poder e mistério e Deus quer nos mostrar a glória dEle…
    “E, acercando-se dele os discípulos, disseram-lhe: Por que lhes falas por parábolas?
    Ele, respondendo, disse-lhes: Porque a vós é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; Porque àquele que tem, se dará, e terá em abundância; mas àquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem.” Mateus 13:10-13

    Olha isso! É um privilégio que muitas vezes colocamos a perder!

    A Paz.

  6. Passo os mesmos dilemas; hora quero desbravar, hora entendo que não preciso ser tão radical desde que faça tudo para glória de Deus; quer comais, quer bebais, façais tudo para glória de Deus; claro que isso não nos tira a responsabilidade de analisar tudo que vamos fazer, ao contrário, o amor de Deus é tanto que nos constrange. Esse texto bateu comigo e penso que, a medida que busco, que me aprofundo, mais vou deixando o mundo.

  7. É mesmo incrível… já não sei se é (pelo que Paulo disse em Rm 3:10-18). Hoje mesmo me perguntava sobre… como posso acreditar no que tenho ouvido e ser relutante em abandonar tudo por Ele, principalmente coisas. Não seria mais coerente com essa fé o correr desesperadamente para o Deus? Quanto amor ao que não tem nenhum valor (se comparar)!

    Talvez quanto mais O conhecermos, mais isse abandono será natural… devido a nova natureza, claro, não por nós mesmos. Enfim, só me resta buscar conhecê-lO e entendê-lO a ponto de não querer mais nada além dEle. Se Paulo disse aquilo em Fp 3:8, e tendo tido a mesma impressão sobre o Pr. Paul Washer (mesmo sem saber as coisas que você escreveu aqui) só posso acreditar que é possível. Enquanto isso vamos prosseguindo para o Alvo. Penso que à medida que mais O conhecemos, desvendando mais do seu valor, preterimos outras coisas que não são Ele.

    É bom compartilhar aqui esses pensamentos.

    Vlw, irmão.

  8. Valeu a pena o esforço, o texto ficou muito bom!
    É engraçado como isso dá um nó na nossa cabeça, porque eu fiquei um tempo em uma igreja legalista e foi muito bom, eu sentia alegria, muita alegria, de deixar tooodo tipo de vaidade, todo tipo de prática semelhante ao mundo pra servir a Deus. Até que eu comecei a perceber que aquele tipo de pregação não passava de uma exortação à conversão externa, o que exclui completamente o sacrifício de Jesus na cruz. Deixou-se de lado a mensagem da cruz para voltar a tomar a salvação por força (Mt 11.12). Pregava-se que se você fosse ao cinema ou visse uma televisão, estaria mergulhando de ponta-cabeça no inferno. As pessoas, com medo, deixavam essas práticas. Mas aí eu pergunto: se a mensagem “não faça isso, não faça aquilo” é mais impactante do que a mensagem da cruz no meu coração… então… Qual é o sentido disso tudo? Pura religião, sem Jesus.
    Ao derramar o Espírito Santo sobre nós, Deus nos deu um voto de confiança, porque seria Ele quem governaria nossas vidas e não nós mesmos (Gl 2:20). Ele nos deu liberdade para viver neste mundo governados por Ele (Jo 17:15-20 – palavra linda linda linda). Agora, é aquela velha história: de dois cães bravos prontos pra brigar, quem vai vencer a briga? Aquele que for melhor alimentado. Se o que estamos alimentando mais for nossa carne, é ela que vai nos governar (e isso é sinal que não houve entrega total a Deus), mas se alimentamos o espírito, não há dúvida, insegurança, medo etc. que possa vencer.
    Esses dias eu vi uma publicação do John Piper, acho (http://www.desiringgod.org/blog/posts/jesus-gives-us-reasons-to-obey), falando sobre o porquê de amarmos nossos inimigos e tantos outros porquês que a gente “obedece” – em teoria – sem questionar. É porque Deus nos promete uma recompensa pra isso; não há recompensa maior e mais prazerosa do que Jesus e a vida eterna que por Ele obtemos. Agora… se há algo que nos causa maior deleite que a Palavra de Deus, alguma coisa está desequilibrada.
    Claro que podemos – e devemos, senão seríamos robôs – ter prazer em outras coisas – como em um momento de lazer, ou estar com uma pessoa amada, ou comer uma comida bem gostosa. O problema é quando se torna rotineiro pensar que um tempo na frente da TV seja mais recompensador do que um tempo de joelhos de intimidade com o Senhor. (Dica e alerta: se quando for fazer um momento noturno de consagração a Deus, beemm de noite, cansado, quase dormindo, e começa a orar a Deus pra que Ele ajude o Leonard, do The Big Bang Theory, a abrir o mais o coração pra Deus do que pra Penny, é um sinal de que tem alguma coisa errada. Vai por mim, experiência própria..rsrs).

    Deus te recompense. Ao escrever, está abençoando outras vidas. 🙂

    1. Hahahahahahahaa!! Nunca orei pelo Leonard e a Penny, mas já tive orações interrompidas por muito menos. E Big Bang é muito legal… contanto que eu não guarde rancor contra o Sheldon. hehehe…

      Abraço,

      A

  9. Drew, bacana que a Conferência da Fiel tenha sido tão legal! Queria ter ido…

    Queria só colocar uma coisa relacionada a este post aqui, que fiquei pensando. Porque acho que é possível, também, encontrar Deus no cinema, na literatura, na música, na arte. Ele anda por lá também e, uma vez encontrado, a satisfação para a alma inclusive pode ser imensa. Tipo, pegando um exemplo mais direto, lembro como o John ficou entusiasmado com a fala final do Batman 2, do Nolan, e como dava pra tecer um paralelo com a história da redenção através de Jesus (“Because he’s the hero that Gotham deserves, but not the one it needs right now… and so we’ll hunt him… because he can take it… because he’s not a hero… he’s a silent guardian, a watchful protector… a Dark Knight.” — desculpem o spoiler, rs). Pra mim essas coisas (menos novelas e seriados, vc sabe) são mais que entretenimento-para-o-relaxar-depois-de-um-dia-ruim; são inclusive meu trabalho.

    Por outro lado, acho que mesmo para aqueles que não trabalham com isso ou não tem tanto envolvimento com a cultura/meio artístico (na verdade expressão artística não tem a ver com “entretenimento” a princípio, mas isso não vem ao caso aqui), ainda assim acredito que Deus criou o entretenimento como tal (não só o “das artes”) também: veja-se o ornitorrinco, uma das primeiras piadas do mundo.

    Claro, existe o entretenimento ruim, de baixo nível, que faz mal à alma etc. Mas a vida aqui é dura, e às vezes Deus pode usar o entretenimento como agente para nos ajudar a suportá-la. Ele diz que é nosso Consolador, só que não descreve todos os jeitos que nos oferecerá essa consolação… Acho que precisamos ter cuidado com uma visão um pouco “maniqueísta” (que talvez se aproxime ao puritanismo radical). O puritanismo pode ser bom em muitos aspectos, que vc tratou no post, mas pode também gerar muita decepção (com Deus, com não alcançarmos uma esperada “espiritualidade”…).

    Além do mais, Deus se mostra e se expressa de formas diferentes para os cristãos (não é universalismo, mas a “multiforme graça de Deus”). Tipo, pro Washer ou pro Beeke pode ser assim: Deus preenche a vida deles através da oração direta apenas. Mas talvez eles nunca chorem ao ouvir uma música “secular”, tendo a certeza que Deus falou com eles ali, ou nunca entendam uma forma de melhorar seu relacionamento com o pai deles através de um filme — como já aconteceu comigo. E tem também aquilo que Paulo diz: cada um “ande conforme aquilo que já tem alcançado”. Famoso “cada um no seu cada qual”, hehe.

    Que achas disso? Sei lá, a vida com Deus é tudo isso aqui — tudo junto misturado. Um tempo atrás escrevi mais sobre: http://www.ultimato.com.br/conteudo/a-alma-e-a-materia

    1. É uma linha tênue. Quanto ao Washer e Beeke nunca chorarem ouvindo uma música, tenho certeza que para eles não faz falta alguma.

      Lendo o que você disse, tenho a seguinte ponderação: por que buscar numa fonte secundária quando temos acesso direto à primária? A graça comum cai sobre todos e a revelação geral toda sugere e aponta para Deus, sim. Mas será que podemos nos ocupar com isso no lugar de ir diretamente à Palavra?

      A “alienação” e o puritanismo não são o alvo. São apenas exemplos. Não proponho uma mudança de vida somente pelo fato de se separar. Minha ênfase, talvez não tenha feito direito, é a de ter uma satisfação plena na Palavra e na presença de Deus. A repercussão natural dessa satisfação seria vista de fora como legalismo. E foi isso que tentei mostrar. Os exemplos que dei não se restringem, eles simplesmente não sentem falta alguma. Eles não escolhem não fazer algo. Simplesmente escolhem fazer uma outra coisa. E isso vem de uma satisfação maior em Deus do que em qualquer outra coisa.

      E sim, tem que se tomar cuidado para não estabelecer esse padrão como o objetivo em si, mas tentar compreender o princípio por trás dele.

      Quanto á entretenimento para ajudar a superar algumas dificuldades da vida… essa eu não entendo tanto assim. Mas enfim, a questão que eu quis levantar é como que a gente as vezes corre para um entretenimento e este acaba tomando o lugar da Palavra. Por exemplo, eu pessoalmente já assisti muito filme de ação pra poder escapar de um período complicado. Acabou o filme, continuo mal. Se tivesse ido para o Pai em oração, eu talvez pudesse ter uma experiência de cura, de consolo. É complicado… quem sabe a gente não senta pra conversar sobre isso melhor um dia 😀

      Abraço,

      A

      1. Certeza, concordo que a fonte primária é melhor e que o filme de ação não vai curar a gente. Me expressei mal, o que queria dizer inicialmente é que pode ter Deus dessa outra forma também, mas ela não deve excluir nem tomar o lugar da fonte primária (e mais importante), Palavra e oração. É só uma ideia de não descartar totalmente o resto (e tb entendo que vc não esteja propondo isso nem estabelecendo padrões). 😉

  10. Gostei do texto, e entendi que a questão que você está querendo provocar nos leitores não tem a ver com assistir ou não filmes, ou com as regras em si, mas com o que está por trás delas.
    Bom, mas confesso que li isso e pensei: nossa, um tanto quanto extremo! E extremismos, dão um pouco de medo..
    A questão que me pergunto é se Jesus vivia dessa forma tão a ‘margem da civilização’ de sua época..
    Não to querendo usar uma afirmação assim como desculpa pra viver um liberalismo oba-oba.
    Mas, sinceramente, não sei se consigo ver na Bíblia um Jesus tão a margem da civilização. Jesus frequentava lugares não tão prováveis para um religioso, se relacionava com a comunidade e, inclusive, era visto como meio “mundano” demais para os fariseus de sua época.
    Enfim, não tenho respostas, só as perguntas.. e gostei do seu ponto, mas fiquei pensando nisso…

  11. Realmente, há uma angústia gerada pelos excessos: música, cinema. Exatamente, porque parece que não compreendemos os limites, ou que tudo isso faz com nossa alma.
    Gostei muito de ler seus textos.
    Descobrir seu site essa semana.
    Fica com Deus,

    1. Concordo com você. Minha provocação se inscreve muito mais no quanto de vazio que existe em nós. Pense em uma coisa: a superficialidade tem nos tragado de forma concreta quanto a espiritualidade. Vejamos, nós conversamos com facilidade dos assassinatos, os resumos sangrentos televisivos, sobre os seriados (gosto muito, por sinal), etc.
      Mas eu percebo também uma falta de compromisso com profundidade do nosso relacionamento com Deus. Na realidade, eu mesmo faço este exame em minha vida.
      Contudo, eu acredito que não dá para viver no mosteiro. Admito que gosto muito de Norah Jones; aprecio a poesia de Maria Lúcia Dal Farra; como também gostei do romance Caderno de Ruminações do escritor Francisco Dantas (citei os dois últimos livros que li este ano).
      Mas eu não dispenso minha busca por Deus. Acredito juntamente com você que podemos andar no mundo como peregrinos. Pelo menos um peregrino com pouco de conhecimento. Talvez, na mesma linha de Chesterton que não deixou de travar sua luta com a cultura que se voltava contra a fé.
      Agradeço a resposta gentil.
      Em Cristo.

  12. Olha, refletindo sobre “Examinar tudo e reter o que é bom” penso que seria interessante “cortar algo da sua vida” que antes era visto como “comum” se isso está incomodando você. Terminei de ler o “Deuses Falsos” do Keller e ele diz que “Um idolo não pode ser eliminado, ele pode ser substituido”. Se nós “forçarmos” uma barra para trocar um hábito sem realmente possuir intenções sinceras, o “algo” volta pouco tempo depois com força total. Mas… como fazer isso sem permitir esse “retorno”? Spinoza escreveu que apenas podemos substituir algo definitivamente se o que colocarmos no lugar for algo beeeem maior. Eis a resposta. Os exemplos de grandes homens de Deus estão ai, mas, cada um tem uma história particular com Deus. Não sei se eu poderia realmente mergulhar numa mudança tão radical como eles fizeram. De repente, radical pra mim seria aposentar meu Ipod. A questão é: o Ipod me separa de Deus? (quado eu digo “Ipod” me refiro no uso que faço dele…) Acho válido entender os exemplos e me espelhar eles, e se o espírito de Deus me inclinar para uma mudança que espelha as atitudes desses homens, eu irei sem sombra de dúvidas. Mas mesmo assim, o quebra cabeça que formará minha história possui peças diferentes, por exemplo, das suas Andrew. Não podemos correr o risco de mudarmos nossa vida buscando algo em troca, tipo, “agora que eu não tenho mais Ipod o meu relacionamento com Deus vai melhorar”. Seria como dizer pra minha namorada que eu não vou mais me atrasar a compromissos e esperar que o carinho que ela me dá melhore, ou que nossa relação se eleve a um nivel de amor mais “Bonito”. Não: eu não vou me atrasar porque respeito o amor que ela tem por mim e porque isso é o minimo que eu posso fazer pra que ela me veja como um homem de compromisso. Entende? Independente do que aconteça eu não posso “esperar” algo. A mudança virá, mas de forma natural (embora ela pareça não natural para os mais desavisados…). Lembra de Zaqueu? Jesus disse: “HOJE VEIO salvação a sua casa”, e não “Você vai mudar e a salvação VIRÁ”. Ou seja, uma unica atitude de Zaqueu foi suficiente para a Salvação inundar sua casa e suas atitudes. Finalizando, se vc está ssntindo que esse é o caminho, vá, mas não espere algo, apenas isole sua mente de preocupações e apenas FAÇA… Eu não sou “salvo” porque eu “mudei”, mas eu “mudo” porque sou “salvo”! Abraço cara e parabens, seus textos são uma brisa refrescante pra galera aqui na net.

    1. Tiago,

      Meu objetivo com esse post não foi estabelecer um padrão a ser seguido. Da mesma forma, minha ideia não é “renunciar” somente por renunciar, mas descrever um exemplo de alguém que vive nessa “marginalidade” por livre e espontânea escolha. Se alguém consegue conciliar as duas coisas, sem nunca atrapalhar o relacionamento com Deus, então ótimo.

      Mais uma vez, citei apenas um exemplo. O que quero incentivar é uma busca por Deus até que esta se torne não uma disciplina forçada, mas verdadeiramente o maior prazer possível, uma pessoa que sinceramente não tem prazer maior do que buscar a Deus acima de todas as outras coisas.

      Abraço,

      A

  13. Bacana!
    Eu acho que o que você experimentou é mais ou menos o que tantas pessoas experimentam quando têm “coisas preferidas”. Nossa lista de preferências vai nos definindo.
    Por exemplo, torço pro São Paulo. Dificilmente consigo assistir um jogo. Por quê? Porque prefiro fazer outras coisas. Só acompanho os resultados.
    Não culpo quem gosta de música sertaneja, não há nada de errado nisso. Mas como não vejo muita graça, não consumo, não assisto, não vou a show. Nada.
    Mais um exemplo: nunca bebi bebida alcoólica e já achei que bebê-la fosse pecado, lá no comecinho da Fé. Hoje não acho. Mas não vejo propósito em começar, nem tenho curiosidade. Não vai me agregar nada, a não ser um novo cartel de lugares pra frequentar. Ou seja, nenhum proveito real.
    E isso tudo é natural, como deve ter lhe parecido natural àqueles homens preferirem gastar mais tempo com Deus do que com amenidades. Ouvi de meu pastor dias atrás o seguinte:
    – A questão não é renunciar coisas e sim, apegar-se mais a Deus. Quanto mais você deseja, se aproxima e procura ser parecido com Ele, mais coisas você vai largando naturalmente. Renúncia por renúncia não funciona porque o desejo continua e o que foi renunciado está pronto para ser abraçado novamente, principalmente se for ruim. O que funciona é buscar mais a Deus. Você vai largar o resto naturalmente.
    Acho que é por aí.

    Abraço,
    Marco.

  14. É eu assisti grande parte das palestras pela internet e para minha vida espiritual foi muito bom e com entusiasmo divulgava no face e para minha surpresa ninguém curtia ou compartilhava me senti um ET principalmente quando era em horário de algumas novelas que por sinal não curto a muito tempo.Estou feliz pois traves de suas palavras tive a certeza que escolhi o melhor caminho e já estou pagando o preço de ser diferente. Um abraço

  15. Parabéns Andrew pelo texto !!!!, é a primeira vez que comento em seu blog apesar de lê-lo sempre quando posso. Realmente, saber que há irmãos como esses que se privam de certas coisas não por legalismo, mas por acharem que não fazem nenhuma falta em suas vidas, são dignos de admiração. Eu perto deles iria me sentir “uma sei lá o quê” rsrsrsrs

    Abçs,

  16. Oi Andrew, sou de taubaté , SP . Conheci seu pai e irmão na juntos em cristo. Vou te contar o que tem acontecido comigo. Desde o momento em que ouvi a pregação chocante do Paul Washer, Deus mudou e tem transformado minha vida. Eu estou me desligando já faz algum tempo de todo entretenimento à nossa volta. É incrível ver a carne lutando de todas as maneiras para ” ter algo tão superficial”, mas por outro lado é majestoso ver Deus trabalhando em minha vida, e o Senhor tem me dado tempos gloriosos em sua presença. Paul Washer e Dr Beeke tem nos influenciado desta maneira “Passo agora a mostrar-lhes um caminho sobremodo excelente” (1Coríntios 12.31b). Tudo isso é o trabalhar de Deus em nossas vidas, porque aquele que começou a obra em nós, há de completá-la Filipenses 1:6

    Um dos maiores exemplos ::Charles H. Spurgeon nasceu em uma época, na qual o futebol estava surgindo na Inglaterra. Enquanto seus amigos corriam atrás da bola, o pequeno e gordinho Charles amava a biblioteca puritana de seu avó, James Spurgeon.
    Olha o impacto que esse homem causou no mundo, por não se amoldar ao “hedonismo de nossos dias”. O profeta mesmo depois de morto, ainda fala e sua voz ecoa por toda a terra, através de seus sermões e livros.

    Que Deus levante homens, que tenham plena satisfação nele, é que nos possamos ser esses homens. Creio firmemente em 1 Jo 2:14, quando o Senhor declara através de João, que escolheu os jovens porque eles são fortes

    Para finalizar, uma frase para nossa reflexão, da qual gosto muito:

    “Essa geração só pode alcançar essa geração para Cristo”

    Que Deus continue abençoando sua vida, seu pai, irmão e família

    César Augusto(Spurgeonista- rs ) de Taubaté, SP

  17. Olá, Andrew. Eu já havia lido o seu texto dias atrás, mas hoje de manhã eu olhei o versículo de Salmos 1:1-2 que diz “Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios, não imita a conduta dos pecadores, nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, SUA SATISFAÇÃO ESTÁ NA LEI DO SENHOR, E NESSA LEI MEDIDA DE DIA E DE NOITE”, e me lembrei desse texto. Vou explicar o contexto que interpretei desse versículo em relação ao texto.

    Muitos programas de tv, como já sabemos, pregam um estilo de vida errado, e muitas novelas e filmes até mesmo zombam e difamam a Palavra de Deus. Para mim, assistir programas assim se incluem tanto neste versículo como ter amizades com não cristãos e ser influenciado por eles, porque a televisão também influencia (até mais do que as pessoas em nossa volta). Mas o versículo que segue em diante, falando da satisfação na lei de Deus, é o complemento de que não precisamos olhar programas de tv para descanso e satisfação, porque tudo isso recebemos de Deus, e temos mais prazer nisso do que em estar olhando um programa. Não porque é pecado, mas sim porque nossa satisfação está na Lei do Senhor.

    Foi uma reflexão que fiz, e já que me lembrei do seu texto, achei legal compartilhá-la. Acho que é um versículo que explica, na minha opinião, o porque do Paul Washer não ter prazer em cinemas e seus derivados.

    Deus abençoe!

  18. Parabens Andrew! Muito bom o texto. Gostei principalmente pois eu tenho passado pelas mesmas coisas. O mesmo sentimento de busca por mais de Deus, e a percepcao que tenho que me afastar, e em alguns casos, abandonar certas coisas que nem pecado sao. Essa percepcao de radicalidade e devocao comecou em mim quando li o livro do bispo John Charles Ryle, “Santidade sem qual ninguem vera a Deus”. O autor trata disso de maneira especial. Outra influencia tambem se deu ouvindo e lendo o saudoso Rev David Wilkerson. Sempre me perguntei o porque da “radicalidade” dele em defender abstinencia da televisao (explicado em seu livro “Toque a trombeta em Siao”). Hoje entendo melhor. Ainda estou longe, longe mesmo da perfeicao. Mas as vezes me pego questionando se devo me afastar de coisas tao pequenas que, embora ainda nao tenha feito, sou grato a Deus, pois eh pelo Seu Espirito que Ele nos comunica estas verdades. Quanto a sua argumentacao a respeito de espaco que as coisas tomam em nos, realmente foi muito boa. Como, realmente, basta gostarmos de mais de um filme que ocupamos tanto de nossa mente e tempo so pensando nisso nao eh mesmo? Eu que o diga. E aqui vale dizer que sim, estou ancioso pela estreia de “O Hobbit” rsrsrs. Estou morando nos EUA atualmente, e pretendo assisti-lo.

    Obrigado, uma vez mais, por esta saudavel reflexao. Deus abencoe!

  19. Acho que entendi: se as satisfações em forma de entretenimento me satisfazem mais que a minha própria busca por Cristo, eu preciso rever meus valores e começar a renunciar a isto. É isso Andrew?

    Deus abençoe!

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