“Eu” não aguenta mais

“Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões, completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa. Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.” Filipenses 2.1-4 

Você já parou para ouvir uma conversa alheia? Ou melhor, você já parou para prestar atenção da dinâmica da sua conversa com alguém? Não estou falando de prestar atenção no assunto da conversa, mas na conversa em si, no quanto um ou outro fala, onde que um interrompe a fala do outro, onde um respira, onde o outro dá aquela travada no meio de uma frase.

Eu tenho esse estranho hábito de olhar essas coisas. Sabe qual é a minha conclusão? As pessoas não conversam uma com a outra. Cada um apenas espera a sua vez de falar. Quantos nunca estiveram no meio de uma frase, daí alguém a interrompe com algo a acrescentar e você continua a mesma frase como se nada tivesse sido falado? Não quero criticar nem acusar ninguém, até porque sou o primeiro a fazer justamente isso. É apenas uma observação.

Não ouvimos mais as pessoas. Simplesmente não damos ouvido a elas. Aliás, até ouvimos, contanto que concordem com a gente. Enquanto tudo está em concordância, ótimo! Mas, quando duas pessoas pensam de maneira… diferente? Rola aquele atrito, aquela engolida seca. E aí?

Em meio a uma sociedade de inúmeras escolhas e nichos e personalidades e coisas do tipo, fica cada vez mais fácil “personalizar” a sua vida. Eu posso ter qualquer coisa a meu gosto, exclusivo. Aliás, existe hoje toda uma tendência de mercado que aponta para a exclusividade de produtos. Tenho que ser mais “eu”, original, único, sem igual. Mas daí surge a seguinte pergunta: e quando o meu “eu” entra em conflito com o seu “eu”? Como é que “eu” fico? Como é que o “você” fica? A tendência do mercado é deixar de lado esse outro “eu”, afinal, existem várias outras opções para você escolher, outros “eus” mais compatíveis com o seu. O problema disso é que no final das contas, só existe um igual a “eu”, e você nunca encontrará outra pessoa 100% compatível com “eu”. Então… nos recuamos cada vez mais até que finalmente sobra apenas… “eu”. E “eu” pode se tornar alguém muito solitário.

O que mais se vê hoje é o constante confronto dos “eus”. Namoros não funcionam porque “eu” e “você” não combinam. Amigos param de se falar porque “você” ofendeu a “mim”. Pais e filhos, irmãos e irmãs, pentecostais e presbiterianos, arminianos e calvinistas, flamenguistas e vascaínos, brasileiros e argentinos… verdadeiras guerras são travadas pelas mais diversas razões. E se você não acha que há uma guerra, basta observar o twitter ou o facebook no dia seguinte de um clássico do futebol ou durante uma discussão acalorada entre arminianos e calvinistas. Mas no fundo, a questão é uma só: “eu” e “você”. E no final de tudo sobra uma dúvida… para quê? Não importa se “eu” ou “você” ganhar, pois a vitória de uma parte significa a derrota de “nós”.

Mas como conciliar “eu” com… “você”? Simples… tire “eu” da equação. Encontre algo mais importante do que você, algo que seja infinitamente mais importante do que você… ou eu. Paulo dá a dica. Deus chega de mansinho (que na verdade vem com a sutileza de uma marreta para a nossa carne) e diz: “completai o MEU gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa.”

A letra muda, o tom é outro, a batida é diferente, mas a musica é a mesma. Cada um só quer defender “eu”. Então, como conciliar essa multidão de “eus”? Como sentir uma mesma coisa, um mesmo amor, um mesmo ânimo?

Encerro com as palavras do grupo Logos…

 

Um só rebanho,
 um só pastor,


Uma só fé
 em um só Salvador.


É teu amor que nos une aqui


e num só espírito adoramos a ti,
 e num só espírito adoramos a ti.

 

Um só rebanho, 
um só pastor,


Fruto, ó Senhor 
desse teu grande amor.


Só nos gloriamos na tua cruz.


Louvado sejas
, bendito Jesus. 
Louvado sejas, bendito Jesus.

 

Um só rebanho,
 um só pastor,


Sim, esperamos por ti, ó Senhor


É face a face que vamos ver


Quem nos amou
 e por nós quis morrer,
 quem nos amou 
e por nós quis morrer.


 

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14 comentários sobre ““Eu” não aguenta mais

  1. Eh, nos fins dos tempos se esfriaria o amor…Talvez estejamos presenciando isso…mtas pessoas pensando simplesmente em si proprias, incapazes de ouvir, incapazes de olhar o outro…Qtas vezes, até mesmo no relacionamento com Deus muitas vezes somos assim, pensamos tanto em nós mesmos que esquecemos o motivo pelo qual fomos criados…mas, a oração de Jesus por nós foi “Para que todos sejam um, como Tú, ó Pai, és em mim…”Jo17.21… enfim, oro para que, como jovens, possamos fazer diferença diante daquilo que temos visto!!!

  2. pois é… com essa virada de jogo, além de ouvir, conseguimos também mostrar um interesse autêntico pelas outras pessoas e perdemos cada vez mais a vontade de se impor. thanks for sharing 🙂

  3. É isso ai e mais um pouco, eu como mulher estou com a síndrome do pânico de conhecer outras, rsrrs por essa razão, não escutam o que se fala e quando falam só falam coisas fúteis, sei que não são todas mas a maioria,como vascaína não posso brincar com os flamenguistas no face porque um monte deles se ofende, como se fosse a própria vida deles, voltemos aprender a brincar a não levar tudo a sério a escutar o que o outro fala antes de responder… e quanto a mim continuarei encarnando nos flamenguistas.

  4. Realmente…muito bom texto!
    Que o nosso EU se achegue cada vez mais ao TU-Deus para a sinfonia ser plena. Afinal, sem esse TU nunca poderemos ser EU mesmo. E sem TU seremos sempre caricatura dos outros ou das fantasias sobre nós mesmos, satisfazendo nosso EU em lugar algum…que aprendamos com TU a sermos mais UNS aos outros!

  5. ‘Eu’ 🙂 também adorei o texto! Interessantes suas observações sobre as relações humanas; engraçado que vem ao encontro do que percebo por aí. Como disse a Hanna, entre mulheres é um parto conversar, não só por causa de futebol [que, aliás, nem discuto ou brinco pq as brincadeiras são realmente ‘rasas’ e nada a ver com a vida cristã, diga-se (mas isso é polêmica…)], mas pq o papo parece corrida, não haverá amanhã rsrsrs Fora essa brincadeira, a profundidade da sua mensagem aqui é instigante. Estou pensando…

  6. Eu andava pensando nisso esses dias e cheguei a um dilema: eu não poderia concordar mais acerca da “dinâmica” de nossas conversas, é sempre o “eu” esperando o “você” parar de falar pra o “eu” poder falar de novo (e geralmente o “eu” só fala do “eu” e o “você” só fala de “você”. Nunca tentamos ouvir e focar 100% no problema do “outro”. SEMPRE temos que colocar a “nossa” opinião e os “nossos” exemplos acerca do assunto); mas eu tenho medo que, ao adimitirmos isso, assumamos uma posição ecumênica do tipo “ah, ele pensa diferente, preciso respeitar”. Ok, mas e se o pensar dele for contrário à Bíblia? Não podemos simplesmente calar e deixar estar, aceitando o diferente no outro. Eu me sinto meio que entre a cruz e o punhal… De um lado a intolerância total, do outro o ecumenismo que acaba aceitando o erro sem levá-lo à luz pra que ele possa ser confrontado e abandonado…

    O que você acha?

    1. Ok, faz sentido seu argumento. Nesse texto especificamente eu abordei mais a dinâmica da conversa em si, independente do assunto. Tenho observado isso muito entre irmãos mesmo, por isso a referência dos arminianos vs. calvinistas.

      Agora… você tocou num outro assunto complicado. Não, não podemos aceitar a posição do próximo não cristão no que é algo claramente contrário ao que cremos. Nos resta não tolerar, mas, creio eu, respeitar e até certo ponto “tolerar” apenas para ganhar o direito de ser ouvido. Não adianta nada sair logo de cara combatendo toda colocação, se não da próxima vez as pessoas já não lhe darão ouvidos. É uma linha tênue e uma discussão mais comprida do que esse espaço. Mas vamos nos falando! Obrigado pela visita…

  7. Owwwn Andrew, sofro taaanto com isso… Ouço a pessoa falar, falar, falar e quando vou falar sou interrompida. E de tanto acontecer isso, não falo mais nada, fico só ouvindo. (ás vezes sem dar a devida importância) Anran, anran… é, entendo! kkkkkkk
    De repente percebo que me tornei uma boa ouvinte, apenas. Acho que por isso gosto tanto de escrever, porque escrevendo ninguém me interrompe. Né? Fica mais fácil. hsuahsuhahsuahau…

  8. Prezado Andrew,
    Importante reflexão em um momento onde o humanismo tem tomado conta dos nossos púlpitos e nossos pregadores. A mensagem tem sido focada em como o Evangelho pode fazer com “eu” me sinta melhor, viva melhor, ganhe mais dinheiro, goze de mais saúde. O meu “eu” não somente disputa com o seu “‘eu”, mas é mais importante que a própria Cruz. A mensagem de muitas igrejas vem apregoando um Cristo que serve ao mundo e não um mundo que deve servir à Cristo. Um Deus Criador que tem se adapta à Criatura e não a Criatura obedecendo ao Criador. Se nós não tivermos como objetivo fazer eco às palavras de Paulo “para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” é porque não entendemos a mensagem do Evangelho.
    Obrigada por postar este texto. Que Deus te abençoe.
    Ana Beatriz.

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