Andrew, o evangelista fracassado

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” Marcos 16:15

Anos atrás, uma turma da igreja organizou um dia de evangelismo no bairro. A trupe foi dividida em três equipes. Uma ficaria no calçadão da praia em pleno sábado de manhã. A outra, não lembro para onde foi enviada. A minha, na porta do supermercado Zona Sul no Recreio. A estratégia era um tanto “simples”. Cada um de nós tinha um bolinho de folhetos com informações a cerca do Cristo Redentor. Ao entregarmos, oferecíamos algumas “informações sobre o Cristo”. E esse folheto tinha, obviamente, muita mais do que isso.

Foram umas quatro horas… que duraram. Muito. Estava sol, bem quente. Foi um dia e tanto! Meus amigos iam e voltavam de uma e outra abordando toda sorte de gente que por ali passava. Até o Rômulo Costa do Furacão 2000 passou por ali e recebeu seu folheto. Um pastor desconhecido parou o carro ao nosso lado e nos parabenizou pelo esforço. Foi tudo ótimo…

E eu não saí de mãos vazias. Literalmente. Eu consegui ficar com o meu bolinho quase intacto durante as três horas. Bem, eu consegui entregar um folheto… três vezes. Durante quatro horas. Fora isso, acabei abastecendo os amigos que logo distribuíam todos os seus. Não foi por falta de insistência, vontade ou incentivo deles. Eu simplesmente não conseguia chegar para uma pessoa que nunca vi na vida e entregar um folheto. Não foi vergonha, não foi medo, não foi… nada que eu possa apontar. Eu simplesmente não consegui sair do lugar naquela manhã.

Me senti péssimo. Tanta gente com muito menos tempo de igreja do que eu indo e vindo… evangelizando até funkeiro. Será que fiz algo de errado? Será que não servia para evangelizar? Como é que faria para compartilhar do amor de Cristo com os outros e cumprir a grande missão?

Bem, essa história de fracasso me acompanhou durante anos, talvez uns cinco. Eu devia ter uns quinze anos na época. Não foi até chegar na faculdade que tive uma experiência que mudou meu modo de ver.

Imagine aquele jovem cristão virgem de vinte e poucos anos que nunca ficou bêbado ou fumou… ou ficou… ou… tantas outras coisas. Me formei em Letras, então imagine meu círculo de amigas. Fora um ou outro, eram só menina. Ouvi de tudo que puder imaginar. E talvez algumas coisas que seja melhor não imaginar. Desde as novidades das lojas até o último creme hidratante até as desilusões amorosas. E você nunca ouviu uma boa história sobre desilusão amorosa como a de uma menina. Pelo menos as que eu ouvi eram um tanto dramáticas.

Mas, enfim, depois de uns dois anos de faculdade, estávamos nós lá num papo entre uma aula e outra falando sobre, adivinhe, mais um amor fracassado. Eu, tentando ser o cavalheiro da turma, o ombro amigo tentando aconselhar e tal levei meu papo como sempre quando de repente uma amiga minha vira e me diz: “Andrew, sabe o que mais? Você que tá certo. Você não fica a toa, você é todo certinho. Você que tá certo. Eu nunca conseguiria fazer o que você faz, mas você que tá certo.” Aquilo me chocou… num bom sentido. Pela primeira vez eu não fui repudiado ou ridicularizado pela minha fé. Pela primeira vez, meu jeito “careta” foi valorizado como certo. Isso foi… interessante. Numa outra instância, um conhecido que se dizia budista chegou a me dizer: “Cara, eu tenho uma inveja do &#%!#@ de você e dos crentes, porque vocês têm uma certeza, uma fé tão convicta.”

Na faculdade aprendi uma coisa (Fora de sala. Aprendi bastante nas aulas também.): aprendi que depois de me conhecerem, esses meus amigos podem dizer que conhecerem um crente sério. Sim, eu sofri algumas várias piadas a respeito da minha fé, mas depois de me conhecerem, viram que eu era normal, que eu não era um fanático nem nada do tipo. E, no final das contas, chegaram ao ponto de dizerem que eu estava certo. Isso, para mim, foi um baita evangelismo.

O que foi que eu fiz de “certo”? Não abri mão da minha opinião, da minha crença, dos meus pensamentos, ao contrário de alguns amigos cristãos que, infelizmente, “se revelaram” durante aqueles anos. Em momentos quando fui confrontado com coisas das mais loucas, tive a convicção e a calma para poder conversar com tranquilidade e mostrar para meus amigos uma outra história, um tipo de crente que não diz “Aleluia, glória a Deus, tá amarrado” a qualquer momento. Encontrei paz ao saber que cada um dos meus amigos teve a oportunidade de ser confrontado com um pensamento diferente, com um cristão que realmente não fingia ou falava de algo que não praticava.

Sou grato a Deus por ter sido preservado durante meus anos na faculdade, porque eu pude apresentar um testemunho que foi reconhecido por outros.

Penso a respeito da passagem sobre o sal e sobre o efeito dele. Quando há sal na comida, sua presença é facilmente notada, assim como a falta dele. O sal, enquanto tiver gosto, não precisa se esforçar para ser notado. Ele simplesmente o é.

Talvez você tenha o dom de chegar para alguém “do nada” e começar a pregar. Tenho uma admiração tremenda por pessoas assim, pois não consigo se quer entregar um folheto para um estranho. Mas… Deus me deu a oportunidade de aprender que aquele não é o único modelo de evangelismo. Aprendi que eu posso evangelizar, lentamente, no dia a dia, apenas vivendo como um cristão, demonstrando uma atitude condizente com os ensinamentos de Cristo.

Que Deus capacite a mim e a você para perseverar e me manter fiel a Ele nas ações, palavras, pensamentos, atitudes etc. para que, pela misericórdia d’Ele, alguém possa ver em nós algo que desperte uma procura pelo verdadeiro Deus.

“Pregue sempre o evangelho. Se necessário, use palavras.” Francisco de Assis

 

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10 comentários sobre “Andrew, o evangelista fracassado

  1. Olá Andrew, muto bom o seu post, penso assim também, o melhor evangelismo é o da nossa vida, mas como você falou é preciso sim, evangelizar, não podemos guardar esse amor que nos foi dado por Cristo pra nós com tantas pessoas sofrendo e esperando apenas uma palavra ou apenas um aperto de mão… mas entendi perfeitamente o que você falou,gostaria que você falasse sobre jovem cristão que xinga palavrão, estou na Igreja nova vida três anos e isso parece uma normalidade para eles, me assusta um pouco confesso, agora com o face e o blog que tenho conhecido mais da filosofia da igreja e tenho pra mim que não é uma normalidade… desculpe o desabafo, fique com Deus !!!

  2. Concordo em partes com você. Espero que a minha crítica seja construtiva.

    Você deu um ótimo testemunho e ganhou credibilidade, mas evangelismo não é só isso, Jesus nos deu uma ótima “dica” de evangelismo, com esse versículo:
    “E, depois que João foi entregue à prisão, veio Jesus para a Galiléia, pregando o evangelho do reino de Deus,
    E dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo. Arrependei-vos, e crede no evangelho. ”
    Marcos 1:14-15

    Como a bíblia mesmo diz, que a fé vem pelo ouvir da palavra de Deus,
    que vai resultar em arrependimento aos eleitos.
    São coisas que devem andar juntas, anunciar a Cristo e viver como Cristo.

    1. Certamente. Meu objetivo com esse foi mostrar que evangelismo não se resume a ir para a praça ou algo do tipo, como eu pensava durante um bom tempo. Sim, o texto não era uma maneira de abordar tudo que evangelismo deve ser. Eu queria apenas ressaltar a oportunidade diária de evangelismo, e mais, não se sentir um fracasso ao não conseguir “cumprir” com um modelo.

  3. Tem um frase:
    “Desde as novidades das lojas até o último creme hidratante até as desilusões amorosas”
    Acho que tem “até” em excesso…
    Mas sobre o evangelismo, isso deveria ser sim uma prática mais comum a todos, e tanto no dia a dia quanto no evangelismo pessoal, marcado com a galera, como vc comentou.
    Acho que falta prática mesmo. Vejo isso sempre quando uma pessoa timida que nunca abordou ninguem passa a ser encorajada e treinar outras pessoas…o evangelismo passa a ser a melhor hora do dia!
    Deus abençoe a todos e , se puder Andrew, continue no assunto.

  4. Entregar folhetos é mesmo complicado. Algumas pessoas ignoram, outras olham com cara feia… hehehe 😡
    Você não é um evangelista fracassado. Já conseguiu o que eu peço nas minhas orações todos os dias: ”Senhor, coloca o caráter de Jesus em mim. Que as pessoas olhem pra mim e vejam o Teu amor…”
    Parabéns Andrew, belo texto! 🙂

  5. Mto edificante! Evangelismo pra mim sempre foi algo menos formal, mais diário, natural, vivenciado, não me sinto confortável com algumas formas de evangelização (não q eu as julgue erradas), mas sei q são importantes e, por um certo tempo (talvez até hj) eu tenha sido meio frustrado por não conseguir ser tão dinâmico para abordar as pessoas… É importante falarmos, explicarmos, tirarmos as dúvidas, mas talvez seja mais eficiente “despertar interesse” em alguém por Deus através de nossa conduta, da paz de Cristo através de nós etc.
    “O sal, enquanto tiver gosto, não precisa se esforçar para ser notado. Ele simplesmente o é.” >> O fruto do Espírito, ou seja, a evidência da presença do Espírito em nós não precisa ser forçada, a evidência é evidenciada, o fruto é frutificado naturalmente!!! É o q eu mais peço a Deus, q as pessoas possam reconhecê-Lo em mim.

    Deus seja contigo a cada dia!!!

  6. Se mudasse o título para “Lívia, a evangelista fracassada” eu escreveria as mesmas coisas… me identifiquei pq, sinceramente, eu fujo dos evangelismos com panfletos nas redondezas da minha igreja, mas me preocupo muito com meu evangelismo pessoal fora das redondezas da igreja, e é confortante quando outras pessoas notam q somos “diferentes” mesmo sendo “igual” a todo mundo… entendeu? rss
    Fica com Deus e bom fim de semana pra vc!

  7. Caro, Irmão em Cristo.

    Cheguei ao teu blog, através do facebook, onde alguem postou a história de amor de seus pais. A qual, achei muito interessante e tenho levado alguns aspectos em consideração no meu casamento.
    Mas meu contato a ti hoje, se deve pela curiosidade de conhecer o “Andrew”, eu me perguntava?? será que é mais um blogueiro com escrtia bonita??? até que li este testemunho. Pois alegrou meu coração. Tenho 17 anos de conversão e muitas vezes me fiz essa pergunta: onde estou errando como cristão??? nem sempre consigo dizer para minhas colegas de faculdade sobre o que realmente importa. Pois o evangélio esta tão na “moda” e ninguem mais quer ouvir palavras, ou receber um folheto. Então, tenho me calado, e orado apenas para que minhas atitudes falem por si só.
    Andrew, teu blog é uma agradável leitura, pois pela primeira vez no RJ leio algo que realmente é coerente com a palvra de Deus e fiquei muito surpresa que existam jovens sérios e que querem viver o que a biblia diz. (Só para me explicar não sou carioca, somos uma familia de gauchos que estão vivendo no RJ.) Louvo a Deus pele tua vida! Sê forte e corajoso, o Senhor teu Deus é contigo.
    A PAZ do Senhor!

    Kátia S.Stanieski Graebin

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