Você não conhece a minha dor

“Não fiques distante de mim, pois a angústia está perto e não há ninguém que me socorra.” Salmo 22.11

Atire a primeira pedra quem nunca usou palavras parecidas com essas acima. Minha dor, minha angústia, meu choro… é a única coisa que conheço. E não há uma pessoa sequer que possa me socorrer. Quantos sabem o que é sentar no chão do banheiro de madrugada e chorar de puro desgosto, sem forças para se levantar? Chega um ponto em que as lágrimas acabam e sobram apenas soluços, repetidos. O pior é, ao finalmente reunir forças para ficar de pé, dar de cara consigo mesmo no espelho.

“Everybody hurts sometimes”, já dizia Michael Stipe do R.E.M. Todo mundo tem uma dor, calo, tendinite, decepção, tristeza, desapontamento. Se você não sabe do que estou falando, então sinto dizer, mas… sua hora chega. Há dias em que a comida perde seu gosto, o brilho do sol parece diminuir e cada palavra proferida sai da boca arranhando a garganta, pois a vontade é de ficar calado. Dá vontade de fugir, de cavar um buraco com as mãos no meio de um chão de concreto e simplesmente se enterrar e se esconder de tudo e todos.

Mas no fundo desse poço há uma terrível tentação. Lá, naquele buraco que parece não ter fim, vive um miserável ser que compartilha da sua dor como nenhum outro. Ao nos encontrarmos no fundo desse poço, em muitas vezes nos abraçamos com este e retomamos nossa antiga “amizade”. O poço é o seu coração. E esse “amigo” habita lá no fundo, mas só dá as caras nessas horas. Auto comiseração, pena, inveja, raiva, a miserável e ao mesmo tempo confortante e nociva ideia de que ninguém jamais saberá o que sinto e ai daquele que discordar de mim.

“Eu! Eu sou a vítima! Essa é a MINHA dor! E você não entende, nunca entenderá o que se passa aqui dentro. Nem vem que não tem, pois você não sabe o que é trilhar os meus passos. Essa dor é minha, e isso ninguém me tira.“

Alguém reconheceu as palavras acima? Eu certamente as conheço bem… até demais. O pior é que são, em primeira instância, por demais legítimas. Realmente, ninguém conhece a sua dor, pois ninguém viveu a sua história e ninguém consegue compreender todos os fatores que lhe constituem e como essa sua dor atual lhe afeta. Talvez tenha começado com um abraço que lhe foi negado há décadas e hoje tornou-se uma carência ou dependência emocional tremenda. Ou talvez tenha sido um ‘sim’ numa hora em que deveria ter ouvido um ‘não’, e foi o começo de uma noção de que todos à minha volta devem me servir.

Mas a dor… ahhhh, a dor. É quase uma droga de tão prazerosa que pode ser. Nossa dor nos dá currículo. Alguns são definidos por ela. Trazem no corpo uma centena de cicatrizes que legitimam a sua condição de eterna vítima. Conheço bem demais isso, pois em muitas instâncias, lancei mão dessa “carteira de identidade”. E ainda o faço. É uma luta diária para não cair nessa armadilha.

Quando uma pessoa de muletas entra numa sala, todo o ambiente se adapta e se adéqua para recebê-la. Afinal, ela está com dor, é uma pessoa doente. Alguns correm para buscar um chá ou uma água, outros ficam ao lado perguntando se há algo que se possa fazer e por aí vai. E durante aquele período de recuperação, o doente é tratado como príncipe. Tudo é abonado, afinal, está com dor. E quem não gostaria de ser tratado como príncipe? Sempre. Quem não deseja ser paparicado e acolhido sem precisar dar uma explicação sequer? Afinal, é uma pessoa doente. E quantos não carregam suas dores no peito, para que o mundo todo veja? Quantos já não se apresentam e, antes mesmo de dizer o nome, mostram a ferida, a cicatriz, a muleta? Pode ser uma lágrima, um meio sorriso, o que for. Todos nós queremos viver um dia de realeza. Mas isso vicia. Vicia a tal ponto que alguns jamais abrem mão da sua doença, pois a sua condição de doente lhes confere a justificação para uma vida de abonos e facilidades. “Todos devem me servir, afinal, eu tenho a MINHA dor.”

A origem dessa dor varia. Pode ser uma dor física, doença, um trauma de infância, um “não” que não desceu bem, um abandono repentino, uma traição. As caras são várias, porém o teor é o mesmo.

Essa sua dor que mais ninguém lhe tira, essa sua angústia, essas lágrimas que lenço nenhum enxuga já lhe levaram ao ponto de suar sangue? Gotas de sangue? Você já se sentiu angustiado a ponto de o sangue que corre nas suas veias atravessar as vias sanguíneas e sair pela superfície da sua pele? Há um que já passou por isso. Jesus tomou para si o cálice da ira de Deus. TODOS os nossos pecados de uma só vez. A angústia era tanta que Cristo suou gotas de sangue. O texto do evangelho de Lucas é assustador:

“E, posto em agonia, orava mais intensamente. E o seu suor tornou-se em grandes gotas de sangue, que corriam até ao chão. E, levantando-se da oração, veio para os seus discípulos, e achou-os dormindo de tristeza. E disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação.” Lucas 22.44-46

Cristo tomou sobre si, naquele momento, todas as nossas dores. Ele orava intensamente. Ao encontrar os discípulos que dormiam de tristeza, diz: “Levantai-vos, e orai, para que não entreis em tentação.” Hoje entendo um pouco melhor que tentação era essa a qual se referiu. Confesso que até hoje, nunca tinha reparado essa palavra na passagem.

Ser blogueiro não é fácil. Me disciplino (ou pelo menos tento) a escrever um texto por semana. As vezes consigo até dois (como nesta). Mas na maioria das vezes, escrever é um parto. Me forço a colocar os pensamentos e, quando julgo adequado, meus sentimentos nas palavras. Que tentação é expor toda a minha dor na vitrine! MEU blog. MINHAS palavras. MINHA vida. MINHA dor. O engraçado é que mais da metade das coisas que passo, não posso mencionar por questões de ética e responsabilidade profissional. Receber comentário após comentário de pessoas que se compadecem de mim, afinal, eu estou com dor. É muito conveniente. Chega até a ser prazeroso. Mas é uma tentação que vem do maligno.

Quantas pessoas não vivem numa condição doente imposta sobre si por si mesmo? Quantas pessoas não vivem diariamente lançando mão da sua dor para se esquivar de responsabilidades ou maiores dificuldades? Muitas. Sou uma delas.

Vamos parar de depositar sobre o próximo o nosso fardo. Isso é uma falta de respeito com um irmão. Essa atitude é egoísta e injusta. Fujamos da tentação de se justificar e se construir como pessoas a partir de doença e morte.

“O ladrão não vem senão a roubar, a matar, e a destruir; eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância.” João 10.10

Jesus sofreu na Cruz para que tivéssemos vida, e vida em abundância. Não mate o seu próximo ao delegar a outro. Se você crê em Cristo, essa dor não lhe pertence mais, pois Deus enviou seu único Filho para que nós tivéssemos vida!

Mas a tristeza vem. O sol não aparece todo dia. As lágrimas não cessam. Isso faz parte da vida terrena, e não há atalho para a vida. Se você driblar a tristeza hoje, pode ter certeza que no futuro ela lhe alcançará novamente. Possivelmente com juros e correção monetária. Tá doendo? Eu sei. Eu também estou. E o João também. E a Maria também. E o Paulo também. E a Marta também.

Todos nós sentimos dor. Mas a graça derramada por nós na Cruz é maior do que ela.

“Mas ele me disse: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte.” 2 Coríntios 12.9,10

Minha graça é suficiente para você… Minha graça é suficiente para você… Minha graça é suficiente para você.

Essas palavras ecoam no meu peito vazio e…

Ai…

No fundo do poço, tenho de largar a mão daquele “amigo” que por mim espera vorazmente. O salmista falou muito bem quando ele disse que não havia amigo para socorrer. Mas não é bem assim. Quando puder, abra sua Bíblia no Salmo 22 e leia o capítulo inteiro.

Tenho uma música muito especial que ouço quando tudo dói. Ao longo da letra, o autor descreve muito do que sinto frequentemente. Mas o refrão da música diz o seguinte: “Deixe que eu saiba que você está ouvindo. Deixe que eu conheça o seu toque. Deixe eu saber que você me ama. Deixe que isso seja suficiente.”

Ao final do dia, só uma única coisa importa. Minha graça é suficiente para você.

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15 comentários

  1. Luciene Pimentel · · Resposta

    É muito bom saber que não somos os únicos no mundo a sentir certas coisas, Andrew. Que Deus o abençoe a cada dia mais e nos dê força para superar os dias maus. Graça e paz.

  2. Marco Edilson · · Resposta

    A alma humana é algo complexo… mas previsível!! Lendo o seu artigo (do qual gostei muito) eu lembrei da letra de Nelson Cavaquinho, na famosa “a flor e o espinho”, cantada e gravada por muitos, que diz: “Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. Tudo depende do grau de neurose de cada um. Graças a Deus que nós temos toda revelação necessária para cultivarmos mentes sadias, mesmo na dor. Dor, aliás, que faz parte (e uma boa parte) da vida.

    1. Fantástica essa letra!! Vou procurar… não conhecia.

      Abraço!

  3. Greize · · Resposta

    Que benção!Vi seu post, pelo seu pai, e pela primeira vez estou lendo.
    Sim passo por um momento de grande dor, mas tenho que lembrar sempre, quem é Aquele que me consola.
    Bom não domino inglês , então busquei no youtube essa música com tradução.Se possível,colocar músicas com Legendas, ajudaria.
    Minha opinião, humildemente para abençoar a todos.
    Deus o abençoe.

  4. Me abençoou muito seu post Andrew. Veio na hora certa, era tudo que eu precisava ler. A propósito, que linda canção… Compartilhei o post e a canção separadamente pelo Face. Abraços.

  5. Engraçado, acompanho o blog há meses mas nunca havia parado para comentar – péssima seguidora, eu sei. Perdoe-me, rs – mas hoje tive que tirar uns segundos para escrever. Havia lido o justo Salmos 22 pela manhã e agora que terminei de ler o texto veio à mente aquele outro Salmo que diz “Nele, o nosso coração se alegra”. Embora no fundo do poço, há um motivo para a alegria. A salvação. Maravilhosa graça de Deus! Texto muito pertinente, Andrew. “Todos nós sentimos dor. Mas a graça derramada por nós na Cruz é maior do que ela.” Você não conhece a minha dor, mas Ele sabe. E a graça dEle me é suficiente. É tanto amor, tanta graça que me constrange! Gloriosa graça! Amém! Deus abençoe.

  6. Juliane · · Resposta

    Muito bom esse post… Compartilho com vc uma música do poeta Stenio Marcius que fala sobre isso. Abs

    http://letras.mus.br/stenio-marcius/1867493/

    1. Obrigado! Não conhecia… Grande Stênio!

      Abraço

  7. Helenita Ferreira · · Resposta

    Andrew ler seus artigos é sempre emocionante, pois você passa sempre suas emoções com uma transparência que poucos tem coragem de expor. Daí, minha identificação com o que escreve, pq sua dor é a nossa dor, sua angústia é tbm nossa na maioria das vezes camuflada na “santidade”, que não admite que nós cristãos possamos sofrer, e aí vemos que não só podemos, como sofremos e a diferença é que temos um Consolador.
    Você pode ser um escritor pois coloca bem as palavras de forma que nos prende na leitura. Deus o abençoe

  8. Muito bom texto.
    Só acho que discordo (ou não entendi) de que não possamos depositar o nosso fardo no nosso próximo, porque temos inúmeras passagens dizendo que devemos suportar as cargas uns dos outros, que devemos compartilhar as necessidades uns dos outros, que devemos orar uns pelos outros… enfim… tudo isso implica conhecer as fraquezas uns dos outros para que possamos cumprir a nossa obrigação de alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram.

    Tenho maior prazer em ouvir os fardos dos meus irmãos e poder ajudá-los, ainda que somente em oração… Aliás, sinta-se à vontade para desabafar as suas cargas com seus irmãos leitores, é certo que simpatizaremos com suas dores e caminharemos juntos com você.

    Anna

    1. Oi Anna,

      Concordo contigo! Aliás, como você disse, acho que você não entendeu a questão. O problema não é compartilhar nosso fardos com os outros. O problema é quando uma pessoa deposita seus fardos sobre os outros a ponto de “se ausentar” da responsabilidade de resolver seu problema. Já tive pessoas na minha vida que fizemos tudo para ajudá-la, mas ela sempre colocava um furo na nossa solução. Um dia, finalmente chegamos à conclusão que essa pessoa não queria ser ajudada, queria apenas alguém que sempre estivesse ao lado quando ela precisasse. Quando “batemos o pé” e falamos para essa pessoa que não estaríamos mais dispostos a atender todas as suas ligações a qualquer momento, ela ficou extremamente chateada com a gente e foi embora da igreja.

      Mais uma vez, o problema não é compartilhar fardos. O problema é quando a pessoa não se permite enxergar uma solução se fazendo sempre de vítima e sempre dependendo dos outros, a ponto de abusar da boa vontade deles. Fez sentido?

      Abraço!

  9. LUIZA HELENA BRAGA · · Resposta

    OBRIGADA DEUS POR TER USADO ANDREW! COISAS QUE PASSAM EM MINHA MENTE ,PORÉM NAO SEI EXPOR DESSA FORMA. DEUS USA CADA UM COMO QUER. LOUVADO SEJA DEUS!

  10. Paz Andrew. Muito bom seu artigo, por isso gostaria de compartilhar com outras pessoas Posso postar no meu face?

    1. Com certeza! Pode divulgar o link o quanto quiser.

O que você achou? Queria ouvir, se quiser compartilhar.

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